Ensaios

Nessa página, colocaremos textos, ensaios e publicações que citam os autores e ilustradores e/ou livros da RHJ.


NEUSA SORRENTI POR ELA MESMA

 Nasci num friorento 29 de maio, signo de Gêmeos. Cresci feliz, cercada de carinho, na companhia de meus pais, Antônio e Cecília, filhos de italianos, e de meus irmãos Heleno e Ângelo.

Aos cinco anos comecei a atormentar a minha mãe para ir à escola. Como não tinha a idade exigida, a diretora resolveu me aplicar um teste, para ver se eu tinha maturidade para aguentar o batente. Acho que fiz tudo certinho, porque dias depois ia eu, toda serelepe, para o Jardim de Infância. A professora era a D. Hélia Lima.

No ano seguinte, entrei para o primeiro ano. Uniforme quase completo. Caderno de papel de embrulho, lápis, borracha e uma caixinha de lápis de cor, das pequenas, com um baita pavão estampado. Era a glória! A professora, a coisa mais linda! Usava saia godê, cabelo com pega-rapaz, lindo figurino das atrizes dos anos 60. D. Eny Lima, professora do 1º ano, era um esplendor de criatura! Com ela aprendi que Lili tocava piano e que Joãozinho tinha um automóvel que fazia fonfom. Depois fiquei com pena quando a Bonequinha Preta despencou da janela e caiu bem no cesto do verdureiro.

No segundo ano, a professora era a D. Nadir. Que pediu licença e foi substituída por D. Hely Lima. Aliás, as irmãs Lima deram muita sopa na minha vida escolar. Ainda bem! Hoje somos muito amigas e o antigo “dona” desapareceu...

Lembro-me vagamente que tive uma professora muito esquisita, D. Elvira, o poço do mau- humor. Acho que ficou uns meses dando aula, como substituta, e depois saiu (graças a Deus!). Só me lembro do seu jeito travado e da sua falta de tato com criança. Das outras professoras tenho nítida lembrança, mas delas guardo poucas recordações. Ou será que foi só um pesadelo?

Bom mesmo foi o terceiro ano com a D. Maria Geralda Costa. Ela lia histórias em capítulos, como a da Mireninha e a sua continuação – A filha da Mireninha. E tantas outras histórias de Vicente Guimarães. E apareciam palavras novas. Certa vez, ela perguntou o que significava a palavra lama. Eu, mais que depressa, levantei a mão e respondi: – É aquilo de fazer a barba. Lama de gilete! Ela ficou com as bochechas rosadas de tanto rir! Ri até hoje.

No quarto ano, fui aluna de D. Raimunda Santana, professora recém-formada muito competente e exigente. Tínhamos uns livros na sala e podíamos ler, mas nada era cobrado, muito menos fazer prova sobre a história lida. Nessa época eu me dividia entre aprender as matérias e decorar papel de teatro às escondidas, com as folhas do texto no colo. Sempre gostei de fazer duas coisas ao mesmo tempo. Dizem que é mania de geminiano... Ah, já ia me esquecendo. Tínhamos aula de canto com a D. Guiomar Lara na escadaria da escola. Primeiro era preciso respirar – um, dois e depois: “Ouviram do Ipiranga às margens plácidas...”

Mas deixemos de lero-lero. Fiz o curso de Admissão à noite, enquanto fazia o bendito quarto ano de manhã. Depois entrei pro ginásio. A luz era péssima. Houve uma época, antes da instalação da CEMIG, em que era preciso levar lanternas ou velas. Eu era do time das velas, porque meu pai usava a lanterna nas pescarias e não podia comprar uma só pra mim. Mesmo assim era bom.

No ginásio, tínhamos aulas com o Dr. Mário, Juiz da Comarca, D. Zizinha Lima, D. Célia Lara, D. Cármen Parreiras, D. Maria Geralda Costa, Zé Maria Malta e D. Guiomar. Eu gostava era de Português, Matemática e Francês. Devo ter sido a pior aluna de Geografia. Não decorava o que era pedido. Já os textos do teatro...

Terminei o ginásio e ganhei uma bolsa de estudos para o Colégio Pio XII, em Belo Horizonte. Fui morar com a minha querida Tia Maria, que hoje comanda um bloco de anjinhos lá no céu.

Voltei para minha terra após completar o Normal e lecionei quatro anos na Escola Estadual “Coronel Frazão”. Mas me deu uma vontade de fazer Letras e bati asas. Voltei pra BH. Lecionei durante quase 20 anos: Colégio Estadual “Milton Campos”, o Estadual Central; Colégio Imaculada e E.E. “Odilon Behrens”.

Depois de casada, com minha filha Ana Cecília (Ciça) ainda pequena, resolvi estudar de novo e fui fazer Biblioteconomia, na UFMG. E continuei trabalhando – que é muito bom pra saúde. Na década de 90, fiz pós-graduação em Literatura Infantil e Juvenil, e em 1998 defendi a dissertação de Mestrado em Literaturas de Língua Portuguesa, ou seja, Africana, Brasileira e Portuguesa.

Hoje sou aposentada, mas continuo dando cursos de Literatura e Organização e Funcionamento de Bibliotecas; faço trabalhos de leitura crítica de originais para editoras, escrevo histórias e poemas (30 livros publicados); visito escolas onde meus livros são adotados e vou tocando minha vidinha feliz da vida!

Minha terra natal é Itaguara, interior de Minas. Muita gente me pergunta o que acho de minha cidade. É uma cidade bonita, bem cuidada, cheia de pessoas sensíveis. Um pouco melancólica pro meu gosto. É também uma cidade dotada de ótimas bibliotecas.

Quando falo em biblioteca e leitura, por exemplo, penso logo numa porta que se abre para o crescimento pessoal. Por meio dela podemos nos conhecer melhor e conhecer o OUTRO. Existe aventura melhor?

Para você, meu leitor, deixo o meu melhor abraço.

 E O PORQUÊ DA LITERATURA INFANTIL?

Daniel Chutorianscy 

Certamente, o momento mais importante de nossas vidas vai de zero aos seis aninhos. É nesta fase que se inicia o processo. Um mundo enorme gira a nossa volta. A criança tem os olhos pequenininhos, tudo lhe parece grande e fantástico. Seus pais são grandes, a casa é enorme. Ela, um pequeno receptáculo para tentar captar um universo infinito: a família, a escola, a religião, a sociedade, os jogos. A criança interpreta o que vê segundo suas emoções e sentimentos, que podem ser o amor, a raiva, o ódio, o medo, a indiferença. Tais sentimentos tendem a ficar "fixados" para a vida inteira, se repetindo ciclicamente a cada um dos momentos em que se revelam os fatores desencadeantes.

A interpretação para o mundo da criança é vital. Assim, nós somos formados: de memórias, de vivências, de fatores intrapsíquicos, fatores extrapsíquicos e culturais, de indivualidades, carregando esse enorme patrimônio de interpretações para vida inteira. A criança vive uma espécie de "pensamento mágico" que a conforta ou aterroriza. Dessa forma, a imagem projetada do céu é como se fosse a criança boazinha e obediente; o inferno possui a conotação da culpa, do castigo. O "papai noel" personifica a virtude e a bondade; o "bicho papão", a crueldade. E tantos outros exemplos do universo infantil. No processo da maturidade, esse "pensamento mágico" tende a evoluir para o pensar adulto, com suas lógicas, racionalidades e sentimentos próprios.

E o porquê da literatura infantil?

Ela representa um outro olhar, com as letrinhas e desenhos multicoloridos de uma mágica que não é mágica. A realidade da literatura infantil apresenta claramente uma ambiguidade em contraposição ao pensamento mágico do universo infantil. Então, aquilo que é mau, por exemplo, não precisa ser sempre mau, pode tornar-se bom. Aquela coisa feia não necessariamente continuará feia, pode ser que, vista de outro ângulo, não seja tão feia assim, e, melhor ainda, pode se tornar bela. O que é muito triste não é sempre triste, pode se tornar muito alegre.

A literatura infantil compartilha duas situações ambivalentes como a vida: existem o céu e o inferno, o bom e o mau, o feio e o bonito. E, ao compartilhar o pensamento mágico com o pensamento lógico, ela dita novas possibilidades no caminho das transformações, quebrando as repetições cíclicas e monótonas de uma prisão dentro de nós mesmos. Assim, de forma agradável, gentil e afetuosa, a literatura infantil torna-se o objeto de liberdade e amor da criança com o texto, um espelho de situações novas, refletindo a possibilidade de colher novos frutos e transformar a criança em um adulto ético, reunindo senso de justiça, muita solidariedade, cidadania sempre. E, principalmente, sem se esquecer do afeto... E o que certamente pode dar maior contribuição, senão as letrinhas e os desenhos multicoloridos que não esquecemos jamais? É o único "vício" que, ao contrário dos demais, "enriquece" e faz muito bem... A literatura infantil é uma fantástica contribuição para o momento mais importante de nossas vidas.

* O autor é médico em Niterói (RJ) e escreveu vários livros, entre eles, O Dragão Pifão, editado pela RHJ.
 

 

A LINHA, DE MARIO VALE

Araci Setembrina

Muitas vezes, sentimo-nos envolver por uma grande onda de perplexidade, diante da aceleração sempre crescente das descobertas das ciências e do avanço das tecnologias, que, tantas vezes, convidam-nos a questionar o limite da vida e da inteligência. No entanto, ao observarmos a Escola (a letra maiúscula é proposital), desconsolamo-nos ao perceber que tão pouco se tem feito para oferecer espaço à criatividade dos alunos e, especialmente, uma criatividade que tenha a ver com a inocência e com os sonhos ou, mais exatamente, que trabalhe a humanidade, mesmo frente a essas novidades, por vezes, assustadoras.
Os livros didáticos que têm mais força no mercado editorial se enriquecem modernizando-se, mais dificilmente, abrem espaço para uma construção do conhecimento pelo próprio leitor por meio de sua interação com o saber, seja o próprio livro, seja o professor, sejam quaisquer outros meios que possam estar envolvidos de aprendizado. O fabuloso dom de dar asas à imaginação foi, inegavelmente, solapado ao longo da história do ensino.
Sempre me preocupei com o conteúdo dos materiais didáticos anualmente indicados pelo MEC para adoção nas escolas. Como professora, ao pensar na adoção, questionava as minhas possibilidades de acrescentar ao seu conteúdo situações que levassem o aluno a criar, a recriar, mas sobretudo inventar.
Não é difícil captarmos, em nosso próprio repertório de lembranças, como o contato com algo instigante e bem feito nos inspira de alguma maneira e, portanto, atenta-nos para a percepção de como esse fabuloso dom da invenção nos é inerente e belo. Assim, a Educação, sem meias palavras, erra quando não leva em conta e não estimula os vários potenciais do aluno. É muito comum que essas aptidões acabem sendo sufocadas pelo hábito nivelador de grande parte das escolas, pois grande parte do corpo docente que compõe a escola, amiúde, não analisa a relação entre as competências do currículo e as capacidades contempladas pelo aluno.
“É certo que o escritor criativo faz o mesmo que a criança que brinca: cria um mundo de fantasia que leva a sério, enquanto o separa nitidamente da realidade”, afirmou Howard Gardner. Como não considerar o potencial de ensinar de Charles Chaplin em meio a toda sua brincadeira? Como negligenciar a filosofia instigante dos delírios de Emília e, inexoravelmente, de Lobato? Como não lembrar, todos nós, daquele professor, ou daquela professora, tão parecido, mesmo tão diferente com o magnífico mestre de “Sociedade dos Poetas Mortos”? O conhecimento é como uma árvore: quando cultivada com carinho, paciência e confiança, os resultados serão os mais saborosos e coloridos frutos.
A associação de ideias, o caos e a organização do pensamento que se alternam para a saúde mental, a famigerada e infinita dialética, precisam ser intensamente explorados, pois vão constituir parte determinante do ser. Eixos temáticos e transversais não podem enquadrar e aprisionar o ensino, mas fazê-lo maior.
Como todos os mortais, de todos os tempos, imagino, não haverá aquele que fuja de um minuto que seja de angústia ou de desesperança. Quando me sentia vazia, num desses momentos, recebi da editora RHJ um livro diferente, com a melhor conotação positiva que essa palavra possa conter. Era A linha, de Mario Vale. Repito, sem titubear, como algo bom, o que quer que seja e por mais diferente que seja, é concomitantemente, algo inspirador.
Soberbo em linhas sem fim: simétricas, assimétricas, contornos conclusivos e desafios mentais múltiplos. Um livro maravilhoso, real e irreal, oportuno, instigante de ideias, caixa de surpresas, que desafia a idade e quem queira nele mergulhar. Um LIVRO, com todas as letras merecidamente em caixa alta, na sua simplicidade arrojada e séria. Ler e reler linhas é fantástico; é ação que desafia educandos e educadores.
Em A Linha, o dom de inventar, sobre o qual disse há pouco, ganha indefinidas, mas palpáveis dimensões. Umberto Eco, em Entrando no Bosque, muito bem sugeriu a leitura como um passeio pelo bosque. Nele, os caminhos são múltiplos e variam de andarilho para andarilho. E são todos válidos, desde que contidos nos limites do bosque. Não há como negar que, numas dadas linhas, o que se percebe é a dura linha do golpe de 64; no entanto, com as mesmas, obtém-se uma cena cômica do dia-a-dia. As linhas de Mario Vale levam quase ao infinito os limites do bosque de Eco.
Educador Mario Vale, com a licença do adjetivo, quero cumprimentá-lo pela originalidade de sua obra: parabéns! Porque ela, mesmo grão de areia, deixa o mundo mais bonito.



LITERATURA E ÉTICA

Ninfa Parreiras

Que caminho tomar: o do bem ou o do mal? Fazer o certo ou o errado? Ser correto ou ser incorreto? Falar a verdade ou a mentira? O que fazer com o medo? Muitas são as escolhas que o ser humano vai aprendendo a fazer ao longo da vida. E muitos são os destinos que se pode dar aos sentimentos que nos incomodam. São nestes confrontos que acontecem na intimidade subjetiva, no silêncio de cada um, que a ética "aponta" os caminhos e as trilhas a serem seguidos. Esse universo de dúvidas e de indagações habita, desde cedo, o imaginário das crianças e acompanha os adultos por toda a vida.
Como as crianças convivem com os adultos e aprendem com eles as condutas e os valores humanos, os livros de literatura para os pequenos são uma nítida expressão desses valores. Nesse sentido, o campo das artes pode colaborar para a construção de um pensar ético na infância, preparando a criança para enfrentar seus conflitos, suas dúvidas. Em boa hora, por orientação do MEC, foram elaborados os Parâmetros Curriculares Nacionais, que trazem no seu bojo os temas transversais. Estes conteúdos, como, por exemplo, a ética, estabelecem parâmetros para a formação e a informação dos alunos. E é principalmente nos livros de literatura para crianças e jovens que os professores vão encontrar subsídios para seu trabalho na escola.
Sabemos que uma preocupação da filosofia, desde sua constituição na Grécia Antiga, foi a reflexão sobre a ética, que realiza o estudo sistemático das fontes do conhecimento moral. Disciplina desenvolvida na filosofia por Aristóteles, a ética deriva do grego ethikós que significa caráter, costumes, usos. Diferente da moral, ciência do comportamento humano, que deriva do latim moralis (modo de fazer, comportamento, hábito), a ética, além de estudar a justificativa de normas e de valores morais, aponta caminhos para uma escolha entre o bem e o mal. A ética está presente nas ciências, nas artes, na política, na vida cotidiana, nos debates de qualquer escola, nas universidades.
Buscando as fontes do conhecimento moral, identificamos que se originam de diferentes vertentes: da família, da religião, da sociedade, da cultura étnica, da construção subjetiva. Por isso, ética se aprende, nos livros, na escola, na família, na literatura, na sociedade. Ao refletir sobre a ética nos livros para crianças, devemos reconhecer a criança como um sujeito que pensa, que participa, que cria, que pode fazer escolhas entre o que é considerado certo ou errado. A literatura, entendida aqui como uma expressão humana, assume um compromisso com o desejo, nas suas abordagens históricas, sociais, psicológicas. Uma história para crianças, comprometida com a ética, não vai dizer para o leitor o que é certo ou errado, o que é melhor ou pior, mas vai apresentar situações em que estes valores são confrontados e a escolha (se houver) caberá ao leitor.
Nas fábulas de Esopo (séc. VI a.C.), embora pouco difundidas no Brasil, conhecidas mais pela autoria de seguidores como Fedro (poeta latino, séc. I d.C.), La Fontaine (séc. XVII), Monteiro Lobato (início do séc. XX), encontramos textos provocadores de uma reflexão sobre valores e condutas humanas. Em Esopo - Fábulas completas, coletânea de 358 fábulas traduzidas diretamente do grego, não tanto pelos provérbios e pela moral explícita utilizados pelo autor, mas pela linguagem coloquial e visão crítica da natureza humana, constituem-se uma obra de profunda importância para um trabalho que pretende discutir a ética na escola. Retratando ideias do homem comum, os textos, curtos e concisos, exploram os mais diversos valores do bem e do mal. Ao confrontar animais, deuses e pessoas, as fábulas apresentam conflitos, diferenças e possibilitam ao leitor o contato com o outro, na sua mais completa particularidade. E é nesse contato com a diferença que cada um pode se conhecer mais, compreendendo desigualdades, elaborando seus conceitos do que é certo e errado.
Histórias sobre ética, coletânea com onze contos de distintos autores, escritos em tempos e lugares diferentes, reproduzem no texto valores humanos bastante presentes nas discussões contemporâneas: o limite entre o público e o privado, a força do bem e do mal, preconceito, interesses, generosidade, discriminação, egoísmo... La Fontaine, Machado de Assis, Moacyr Scliar, Lygia Fagundes Telles, Voltaire, Guido Fidelis, Katherine Mansfield, Lima Barreto, Lourenço Diaferia, Artur Azevedo e Álvaro Carlos Gomes são os autores participantes da obra, que é leitura obrigatória, principalmente para os jovens e um convite para o leitor repensar suas escolhas. Os jovens, tão às voltas com os conflitos de sua etapa do desenvolvimento humano, encontrarão em Histórias sobre ética vários caminhos para a compreensão de seus conflitos, ao se depararem com histórias que questionam a singularidade do sujeito na sua alteridade e na sua diferença essencial em face de qualquer outro sujeito. É interessante ressaltar que a ética não perde o valor no tempo, e aqui nesta obra constatamos isso, ao ler contos de épocas completamente variadas.
Correspondência, de Bartolomeu Campos Queirós, fala de palavras, algumas que devem ser despertadas e outras que devem ser postas para dormir. Em forma de cartas trocadas entre amigos, o autor põe à prova o texto da Carta Magna Brasileira, de 1988. Sua linguagem poética dá um tratamento especial a valores já cristalizados, levando cada leitor a mudar de lentes para ver as palavras, para tratar as pessoas. Pretendendo multiplicar palavras e cartas, Bartolomeu também pretende multiplicar o sonho de cada brasileiro de um futuro mais justo para todos. Resgata o valor de palavras como trabalho, justiça e terra, e reforça a responsabilidade ética de cada cidadão, quando promove uma circulação de cartas e de mensagens de transformação. A ilustradora Angela Lago cria um projeto gráfico e ilustrações que repensam os Símbolos Nacionais, incluindo as diferentes etnias e espaços físicos brasileiros. Seus desenhos transportam o leitor para o terreno das indagações éticas, encorajando-o a duvidar das palavras e das verdades prontas, acabadas. Suas ilustrações dinâmicas movimentam o olhar parado do leitor, como uma viagem que redescobre os diversos Brasis que temos.
Muitas vezes, situações de dúvidas e inseguranças das crianças, frente aos fenômenos da natureza, às mudanças do corpo, criam ansiedades e medos nos pequenos, sem saber como agir. Uma brincadeira, um jogo ou um poema podem facilitar o diálogo com os conflitos. A ludicidade e a melodia de um poema, familiares às crianças, aproximam os leitores da literatura, com trânsito livre no imaginário. Em De cabeça pra baixo, Ricardo da Cunha Lima traz poemas que brincam com as palavras, com situações que podem ser embaraçosas para as crianças (um guarda-chuva travado, uma manteiga derretida, um aspirador de pó alérgico...). No poema "Os óculos chorões", num mecanismo de projeção, o leitor dá um destino ao medo de um filme, a um choro incontido, quando projeta seus afetos nos óculos. Já a leitura de "O balão de ar com medo de voar" repensa o imprevisto, o infalível, o impossível. Na marca de um nonsense bem construído, há caminhos de escolhas para as dificuldades das crianças, que vão além da vida prática e que a poesia de Ricardo acolhe com fantasia. As ilustrações de Gian Calvi exploram a ludicidade e expressam sentimentos de surpresa, de perplexidade, de alegria, estreitando a relação da criança com os poemas e as imagens.
Lygia Bojunga reúne em Tchau quatro contos que abordam diferentes aspectos das relações humanas. Trabalhando do realismo ao fantástico, a autora fala daquilo que há dentro de cada um: o consciente, o inconsciente, os medos, as dúvidas e a ética presente em situações como a decisão de uma mãe de sair de casa, a relação de um menino do asfalto com um menino do morro, os ciúmes entre duas irmãs... E as implicações subjetivas de cada situação são examinadas pela escrita de Lygia, cabendo ao leitor sua opção. Como sua escrita fala a voz interna das personagens, há em cada conto um abrir e fechar de sentimentos que se confrontam e mostram ao leitor caminhos para a compreensão da subjetividade conflitiva do homem. E as histórias não deixam o leitor abandonado, certamente ele saberá o que fazer com suas dúvidas.
Cartas de um pai preso político ao filho de oito anos compõem Quando eu voltei, tive uma surpresa, de Joel Rufino dos Santos. As cartas falam das saudades que o pai, naquele momento vivendo em São Paulo, sentia do filho que estava no Rio com a mãe. Mas fala também da história do Brasil, da liberdade, dos medos dos dois, da coragem do pai e da ética em construção no nosso país e da crença daquele pai / escritor / historiador de que os rumos das injustiças políticas e sociais poderiam mudar. Além de escrever ao filho sobre a rotina no presídio, o autor desenha, introduz trechos da história do Brasil, relata histórias fantasiosas e repensa a ordem social, propondo o afeto como um meio de encurtar as diferenças e as desigualdades.
Angela Lago, artista da palavra e da imagem, está sempre nos surpreendendo com a inventividade de suas histórias e com a atualidade dos temas trabalhados nas suas obras. Neste momento pós-moderno, pós-guerras, pós-mudança de século, pós-tudo em que vivemos, não parece difícil acreditar em um rapaz apelidado de Seinão, que vai até o inferno buscar alguma coisa indefinida para poder se casar com uma bela princesa. Em Indo não sei aonde buscar não sei o quê, a autora trata das incertezas que desafiam nossos valores, e propõe uma ética do desejo, que atende principalmente ao imaginário da criança. Embora aparentemente absurdas as situações de uma princesa que pede o impossível para um "zonzo" que vai a lugar nenhum, a história conduz o personagem a perseguir sua prova, com todas as dificuldades impostas. Haveria o não sei o quê? Isso é o que nos mostra Seinão, motivado pela crença de que conseguiria realizar o seu desejo.
Da década de 80, mas tão atual quanto um pão fresco saído do forno, é O reizinho mandão, de Ruth Rocha, testemunha de uma época de "reis mandões" e autoritários. A autora não poupa a vaidade humana, mostrando as consequências de um regime autoritário, lançando a semente para uma ética do respeito a cada cidadão, a cada leitor. Calam-se todas as pessoas do reino, à exceção do rei e de seu papagaio, que continuam com o "Cala a boca". Bela metáfora da ética feita por Ruth, que dá relevo à palavra, capaz de transformar situações injustas, capaz de mudar os destinos de um país. Nada mais ético que uma palavra bem empregada, que não agride, que não mata, que não cala, mas que constrói.
Tão importante quanto trabalhar a ética na escola é a escolha das obras que o professor prepara para seus alunos, escolha que deve ser cuidadosa, criteriosa, respeitando o imaginário da criança, tão povoado de fantasias, de medos, e o imaginário dos jovens, tão sobrecarregado de dúvidas, de anseios, de culpas. Mais que tudo, devem ser respeitadas as escolhas de leitura dos alunos e, a partir daí, está aberto o debate sobre a ética.
Palavras chave: ética, moral, escolhas, desejo, contos, o certo x o errado, o bem x o mal, literatura para crianças e jovens, subjetividade, cartas, fábulas, palavras.

Bibliografia:
BIRMAN, Joel. Psicanálise, ciência e cultura. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.
REALE, Giovanni e ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. v. 1. São Paulo: Paulinas, 1990. (Coleção Filosofia)
SERRA, Elizabeth (org.). A ética, a estética e o afeto nos livros para crianças e jovens. São Paulo: Global, 2001. No prelo.
27º Congresso do International Board on Books for Young People - IBBY - El nuevo mundo para un mundo nuevo. (Cartagena de Indias, Colombia, 18 al 22 de septiembre, 2000). ANAIS. Bogotá: Fundalectura, 2001.

Obras comentadas:
ESOPO. Fábulas completas. Trad. de Neide Smolka. São Paulo: Moderna, 1994. 208 p. (Coleção Travessias).
ASSIS, Machado et al. Histórias sobre ética. Introdução e seleção de textos de Marisa Lajolo. São Paulo: Ática, 1999. (Coleção Para gostar de ler, v. 27).
QUEIRÓS, Bartolomeu Campos. Correspondência. Il. de Angela Lago. Belo Horizonte: Miguilim, 1989.
LIMA, Ricardo da Cunha. De cabeça pra baixo. Il. de Gian Calvi. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2000.
BOJUNGA, Lygia. Tchau. Il. de Regina Yolanda. 15 ed. Rio de Janeiro: Agir, 2000.
SANTOS, Joel Rufino. Quando eu voltei, tive uma surpresa. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
LAGO, Angela. Indo não sei aonde buscar não sei o quê. Il. da autora. Belo Horizonte: RHJ, 2000.
ROCHA, Ruth. O reizinho mandão. Il. de Walter Ono. São Paulo: Pioneira, 1978.
NOTAS:
*Texto produzido para a TVEBRASIL, originalmente encontrado no seguinte endereço eletrônico: http://www.tvebrasil.com.br/salto/boletins2001/ltt/ltttxt3.htm
** Psicóloga. Especialista em Literatura da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Pela RHJ, já publicou o livro Com a maré e o sonho.


PELAS TRILHAS DA LITERATURA INFANTIL E JUVENIL:
LIVRO DE HISTÓRIAS OU OBRA LITERÁRIA PARA CRIANÇAS?
HISTÓRIA EM VERSOS OU EM POESIA?
Ninfa Parreiras

A produção de livros para crianças e adolescentes no Brasil tem apresentado um crescimento expressivo, percebido na quantidade de títulos publicados anualmente, na criação de novas editoras e livrarias, na participação de mais escritores e ilustradores e na efetiva compra de livros por programas de leitura. É um crescimento que se deve a vários fatores de ordem econômica e política, como o aprimoramento das editoras e as adoções pelas escolas e compras de programas de governo. Não podemos esquecer que o livro infantil é um objeto de consumo; portanto, um produto que circula no mercado, que depende do consumidor adulto que é o mediador na relação criança - livro.
Se acompanharmos o nascimento e o desenvolvimento da literatura infantil no nosso país, observamos que ela nasce num momento favorável a uma literatura comprometida com o imaginário e a ludicidade, quando Monteiro Lobato lança sua obra A menina do narizinho arrebitado, na década de 1920, do século passado, (hoje publicado como Reinações de Narizinho). Foi na consolidação do movimento modernista que as histórias de Lobato se perpetuaram. Outros autores contribuíram com suas obras, que se tornaram clássicas, como Malba Tahan, ainda na década de 1920. Na década de 1930, tivemos Orígenas Lessa, Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, Luís Jardim e Vicente Guimarães (Vovô Felício). Na década seguinte, destacamos Francisco Marins e Edy Lima. E na década de 1950 o destaque é Mário Quintana. A década de 1960 nos trouxe Cecília Meireles, Maria Mazzetti, Clarice Lispector e Ziraldo, por exemplo.

As décadas de 1960 e 1970 tiveram um contexto em que surgiram vários dos autores consagrados da LIJ brasileira, com o movimento da ditadura militar, com a instituição da lei de diretrizes e bases na educação (1961 e 1971), com a obrigatoriedade da leitura de obras de autores nacionais nas escolas e com a criação da maior instituição voltada à LIJ no Brasil, a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - FNLIJ (1968). Alguns especialistas caracterizam esse período como o do "Boom" da LIJ nacional. Prefiro dizer que, naquelas décadas, a LIJ se consolidou, principalmente, do ponto de vista dos textos, a saber, dos escritores. Alguns deles (Joel Rufino dos Santos, Ana Maria Machado, Ruth Rocha e Sylvia Orthof) começaram a escrever histórias na revista Recreio e encontraram um espaço de circulação livre, enquanto a censura da ditadura militar tinha os instrumentos de controle voltados às produções de livros para adultos. É na lacuna deixada pela perseguição ideológica que surgem os grandes autores da LIJ e que se estrutura uma literatura não comprometida com  Moralismos, nem didatismos, mas uma literatura que permite ao leitor a liberdade e a recriação do texto e das imagens. Esses autores são considerados os herdeiros de Lobato, pois prosseguiram o projeto de uma literatura que contempla os temas atuais, a infância, as nossas raízes folclóricas e o ponto de vista da criança.

Muitos dos que se profissionalizaram como escritores começaram a produzir nessa época e continuam a escrever textos de qualidade para crianças e adolescentes: Ziraldo (1969); João Carlos Marinho (1969); Bartolomeu Campos de Queirós (1974); Lygia Bojunga (1972); Joel Rufino dos Santos (1975); Ruth Rocha (1976); Ana Maria Machado (1977) e Marina Colasanti (1979). Destaco as produções mais recentes de Ziraldo (Menina Nina, da editora Melhoramentos, que mostra a relação neta - avó, a perda e a morte, em uma narrativa lírica); Ana Maria Machado (De carta em carta, da editora Salamandra, com uma história sobre a leitura e as relações afetivas); Lygia Bojunga (Dos vinte 1, da editora Casa Lygia Bojunga, narrativa que retoma os personagens e as obras da autora, numa linguagem viva e intensa); e Marina Colasanti (23 histórias de um viajante, da editora Global, com histórias de um viajante, em prosa poética, característica da obra da autora).


Se Lobato inaugura uma literatura em prosa voltada aos temas nacionais, de tradições folclóricas, com uma linguagem coloquial e lúdica, com abordagens contemporâneas, Cecília Meireles, na década de 1960, do século passado, publica o clássico Ou isto ou aquilo, com poemas voltados à infância. Lobato está para a prosa como Cecília está para a poesia, com criações que valorizam o olhar e a escuta da infância, a imaginação, os neologismos e uma linguagem coloquial. Antes dela, tivemos o importante trabalho da poetisa Henriqueta Lisboa, com versos líricos e carregados de imagens, de metáforas, com edições recentes pelas editoras Peirópolis e Moderna.

A década de 1980 vai marcar a entrada dos ilustradores no mercado, a exemplo de Ângela Lago, em 1980, com a obra Sangue de barata (atualmente, publicada pela editora RHJ). Depois dessa, Ângela publicou muitas obras ilustradas por ela e algumas sem texto verbal, apenas com imagens. Justamente nesse período, os artistas das ilustrações começam a participar de concursos e exposições internacionais, como Rui de Oliveira, Eliardo França e Regina Yolanda, e os reflexos desse investimento são sentidos nos livros ilustrados, cada vez mais belos. Surgem também os primeiros livros sem texto verbal, como O rei de quase tudo (publicado pela editora Mary & Eliardo França), de Eliardo França.

E a década de 1990 trouxe as inovações no campo do projeto gráfico e editorial. Com a abertura do país às importações, muitos papéis e materiais gráficos passaram a ser importados e obras foram impressas em países com custos baixos de impressão gráfica. A qualidade gráfica e editorial do mercado tem se aprimorado cada vez mais, em benefício do leitor, com trabalhos assinados por ilustradores como André Neves (Casulo, um livro sem texto verbal, da editora Global, com um projeto editorial arrojado e encantador); Roger Mello (João por um fio, um conto poético, da editora Companhia das Letrinhas, que integra texto e imagem e transporta o leitor ao universo de fios, linhas, bordados, pescas, redes e do sonho); Odilon Moraes (Pedro e lua, um conto poético, da editora Cosac Naify, que mostra a relação de um menino com o tempo e a vida, por meio da lua). Artistas ou profissionais especializados passaram a ser contratados pelas editoras para cuidar do projeto gráfico da obra. Assim, o livro se configura como uma totalidade de texto, ilustrações e projeto gráfico (a capa, o papel, as guardas, a paginação, a diagramação etc).

Os primeiros anos do novo milênio se caracterizam pela expressiva atividade de instituições, voluntários, educadores, escolas, bibliotecas, ONGs, iniciativas públicas e privadas voltadas ao livro e à leitura. São muitas as feiras, os programas de incentivo-à leitura, os eventos voltados ao livro e à leitura. Além disso, as compras de coleções pelos programas de governos (federal, estaduais e municipais) têm sido um grande incentivo à produção editorial, assim como as vendas de livros pela internet e as feiras e bienais que têm se expandido pelo território nacional. Desse modo, podemos olhar os anos recentes como um momento de aprimoramento da venda e da divulgação dos livros, o que é ainda deficiente no nosso país, de dimensões continentais. Faltam bibliotecas, livrarias, espaços para os livros nos veículos de imprensa e o livro ainda não chegou às mãos de todos. É um dos desafios para os profissionais dos livros (escritores, ilustradores, editores, livreiros, professores, especialistas, bibliotecários e outros).

Há uma acentuada produção da literatura indígena, principalmente de autoria do escritor Daniel Munduruku, que publicou sua primeira obra em 1996 (Histórias de Índio, pela editora Companhia das Letrinhas) e lançou recentemente o belo Parece que foi ontem, que traz o relato de um ritual indígena, pela editora Global. Com cerca de 30 livros editados, Daniel lidera um movimento de divulgação da cultura dos nativos, além de produzir textos poéticos que relatam a vida e as histórias dos indígenas.

Outra expressão que tem sido valorizada no mercado editorial e fartamente consumida pelas escolas é a publicação de obras com influências africanas, muitas vezes equivocadamente chamadas de "literatura dos afro-descendentes". Com isso, recontos, histórias dos negros daqui e da África fazem parte das seleções de leitura dos espaços educacionais, inclusive pela
origatoriedade de as crianças estudarem a cultura de origem africana. Merecem destaque os contos do autor Joel Rufino dos Santos, como Gosto de África, Histórias daqui e de lá, da editora Global, e as histórias de Rogério Andrade Barbosa, que relatam a diversidade de culturas do continente africano, a exemplo de Como as histórias se espalharam pelo mundo, da editora DCL.

O crescimento do mercado tem aspectos positivos, como o da circulação dos livros pelas escolas e bibliotecas, mas traz um movimento desenfreado da edição de livros que se confundem com as obras literárias. Nem tudo que se produz em versos é Poesia. Nem tudo que se produz em narrativa é obra literária. Em minha visão, não há a literatura de qualidade, pois a qualidade já é condição da literatura. A literatura dispensa adjetivos, ela é uma expressão de arte que emociona, comove, leva a experimentar sensações, pensamentos, palavras... A literatura afeta, você não é o mesmo depois de ler um poema, um conto ou um romance. Mas há muitos livros de histórias e em versos publicados como literatura e classificados nos catálogos e materiais de divulgação das editoras erroneamente. E professores e educadores, que não tiveram uma formação em literatura e artes dos desenhos, se encantam pelas fichas que acompanham os livros, pelos efeitos que o livro produz, pelas ilustrações coloridas, pelos brindes que o acompanham, pelo aproveitamento didático das obras.

A literatura, como uma expressão artística, a arte das palavras, como uma manifestação de sentimentos, sensações, impressões e como a expressão lírica de um artista da palavra, provoca deleite e traz um trabalho poético com as palavras e com as figuras de linguagem. Diante de um mercado editorial que produz muitas obras para crianças e adolescentes, o adulto deveria saber distinguir o que é literário daquilo que não é literário: a diferença entre uma obra literária e um livro de história para crianças. Os elementos que caracterizam a literatura como arte e expressão do Belo podem ser encontrados, principalmente, nos textos poéticos, em prosa e em Poesia. Portanto, devemos reconhecer a literatura como um objeto simbólico, como possibilidade de subjetivação para a criança e o adulto, como um instrumento de criação de sentidos. Uma expressão que não comporta condições e regras, nem a priori (antes de ser criada e produzida), nem a posteriori (depois de publicada). Nem tudo que está escrito em versos é Poesia. Não bastam as estrofes e  as rimas, é necessário um algo mais, que vai além, que traga ritmo, melodia, tristeza ou riso, uma sonoridade própria. É preciso uma nova linguagem, que poucos poetas conseguem, como se criassem uma língua visual, sonora, gustativa, auditiva, tátil - sensitiva. Na Poesia, mais importante que o conteúdo é a forma, e o afeto. A Poesia possui uma linguagem sintetizada, aglutinada, híbrida e simbólica como a do sonho, como nos apontou Freud em seus estudos da Psicanálise. A criação poética e a criação onírica falam a mesma língua: a do nosso incons­ciente, as coisas de um mundo com sentidos pouco lógicos e nada racionais. Destacamos os poetas José Paulo Paes, com Poemas para brincar, da editora Ática, e Leo Cunha, com Clave de Lua, das edições Paulinas. Ambos possuem uma obra poética voltada ao jogo de palavras, ao nonsense, à ludicidade, tão necessários à infância.

Sobre a Poesia, o melhor é tomar a obra de Bartolomeu Campos de Queirós, que é construída em forma poética. O que ele produziu (Ciganos, Indez, Ler, escrever e fazer conta de cabeça, todos da editora Global; Por parte de pai, da editora RHJ; O olho de vidro do meu avô e Até passarinho passa, ambos da editora Moderna), comumente chamado de prosa poética, no meu entendimento, trata-se de Poesia. Há uma linguagem inaugurada em seus textos, que são condensados, ricos em imagens, sonoridades e que afetam o leitor. O mais importante nessa produção de Bartolomeu não é o relato em si; mas a subjetivação do poeta, a criação de uma língua comprometida com o imaginário, que faz o leitor sujeito do texto, da sua própria história. Em sua Poesia, o autor fala de coisas corriqueiras da vida e, com sua linguagem, nos leva às questões da Filosofia; ao inconsciente da Psicanálise, à infância povoada de fantasias, às dores inerentes ao ser humano. Isso é literatura!

As obras de Bartolomeu Campos de Queirós e as de Lygia Bojunga representam o que há de mais raro e belo na LIJ brasileira: feitas com subjetividade e poesia, suas palavras atravessam as fronteiras de idade, de países, de valores, de continentes. Nelas habita a Poesia que dá conta de falar do desamparo, da dor, da alegria, da dúvida, num diálogo permanente entre o leitor e o texto, criando uma subjetivação possível a cada um que lê.

Uma ilustração não é um enfeite, nem um acessório a mais no livro. Como o próprio nome diz, ela ilustra (de lustre), dá brilho, dá uma forma diferente ao que está em palavras. Uma ilustração não deveria ser uma legenda para o texto, mas um elemento a mais, a história ou os versos traduzidos em outra linguagem: a dos desenhos.

A edição de literatura para crianças no Brasil cresce e explora os mais variados temas e categorias de textos e de ilustrações. Diante da enorme produção de
literatura infantil e juvenil, somos enganados por muitas publicações que não são literatura, mas são livros de "informação, ou livros de histórias, ou de versos, endereçados ao leitor jovem. Não basta o livro ter a forma de uma obra para crianças (ilustrado, formato grande etc) para ser considerado literatura. É preciso mais do que isso! Em relação ao texto, é necessário que as palavras não venham em forma bruta, não importa se na língua culta ou coloquial. A literatura não atinge o leitor diretamente, com ensinamentos, com explicações. Ela é polissêmica e polifônica; traz muitos sentidos e vozes. Há coisas não ditas, nem esclareci das; há algo aberto para o leitor entrar e dar forma. Há os silêncios e as entrelinhas. As orações não são orações e ponto final. São arrumações de palavras com um trabalho de sonoridade, além do trabalho de sintaxe. Aliás, na literatura, há uma sintaxe própria do autor, que cabe ao leitor ler, interpretar, associar... Por isso, gosto de falar que na literatura as palavras não estão na sua forma bruta, mas na sua forma esculpida, lapidada. Mesmo quando estamos diante de textos de Poesia ou de prosa que abordam as perdas, a morte, o pavor, as privações... E se as palavras se apresentam em uma forma bruta devem ser também poéticas. Não é o conteúdo que define a literariedade de uma obra, mas; principalmente, a profusão de sentimentos que evoca no leitor e o sentido de ser sujeito de sua própria história.


In: SUPLEMENTO LITERÁRIO DE MINAS GERAIS; Belo Horizonte, Outubro de 2007. Disponível em http://www.letras.ufmg.br/websuplit/





LITERATURA INFANTIL E HUMOR:
O EXEMPLO DE BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS
Lélia Parreira Duarte

A literatura infanto-juvenil é vista tradicionalmente como educativa, formadora de caráter e útil para o enquadramento da criança na cultura: daí o seu vínculo, aparentemente natural, com a escola. Se o objetivo da arte literária,
entretanto, é divertir, emocionar, dar prazer, provocar lembranças, estabelecer diálogos, a literatura infantil, mais ainda, deve ser o lugar onde se valoriza a linguagem e a imaginação, deixando de lado o que é óbjetivo e científico, para trabalhar com a contradição e o estranhamento. Isso não significa, de modo algum, um texto caótico e incoerente, porque a literatura tem uma lógica interna: veja-se o caso de Brejeirinha (de "Partida do audaz navegante", de Guimarães Rosa), que pode tecer e refazer constantemente a sua estória, transformar com liberdade irrefreável uma trampa seca de vaca em obra de arte, vendo-a como um audaz navegante enfeitado com um cuspinho, ou chegar a conclusões que ninguém entende ("Mamãe, agora eu sei, mais: que o ovo se parece, mesmo, é com um espeto!"). Brejeirinha pode usar o nonsense e degustar prazerosamente palavras estranhas que normalmente não fariam parte de seu vocabulário e cujo sentido ela não consegue alcançar: "Zito, tubarão é desvairado, ou é explícito ou demagogo?" Pode, ainda, usar analogicamente formas gramaticais: "Você vem conosco ou semnosco?", ou valorizar, com o seu "aldaz", mais a sonoridade que o sentido.

Isso porque a estória de Brejeirinha tem uma lógica interna: se a meninazinha é atrevida e imaginativa, se o seu discurso reflete a sua pouca idade e a sua liberdade ainda não cerceada pelas normas sociais, é coerente a sua linguagem livre, que proporciona ao leitor o prazer do contato com uma criatividade que liberta a imaginação e incentiva a ficcionalização e a inventividade.

O texto literário - e especialmente o que pretende destinar-se a crianças, eu ousaria dizer - reflete a complexidade das relações sociais e afetivas, em suas várias instâncias de relação com o Outro. Será sempre, assim, oportunidade para apresentação da existência humana em sua complexidade e no seu processo subjetivo inevitavelmente contraditório, em que a verdade será sempre múltipla e mutante, exatamente porque apresentada por um discurso subjetivo, a partir de um olhar que se multiplicará com a participação do Outro - o leitor. Usar textos literários com fins meramente utilitários ou pretensamente científicos, como muitas vezes se faz na escola (para ensinar a língua ou ilustrar temas científicos), será, assim, reduzir e descaracterizar a literatura, que perde dessa maneira a sua essência e deixa de fazer sentido, pois o seu lugar é o do uso livre e inventivo da língua. Já dizia Fernando Pessoa: "O poeta é um fingidor / finge tão completamente / que chega a fingir que é dor / a dor que deveras sente". E Guimarães completava, falando como Brejeirinha, das margaridinhas que, "entremunhadas, todas se rodeiam de pálpebras"; do riachinho "sob baile de um atoalhado de espumas, no belo despropositar-se, o bulir de bolhas", da conversa dos namora¬dinhos: "ti a mim, me a ti, e tanto".

É que o texto literário não lida com dados científicos que se pode diferenciar e analisar, pois a sua fonte são os conflitos inerentes ao ser humano e à vida em sociedade, em que os fenômenos são mutantes e relativos - interativos e dialógicos. O que importa nele não serão portanto as informações, mas o modo como elas se veiculam e o prazer que podem proporcionar.

Ler e ensinar literatura infantil será, assim, valorizar e incentivar a degustação e o prazer do texto, perceber o que é, nele, textual e literário, isto é, como o texto toca e emociona o leitor, mexendo com o seu imaginário e tomando prazerosa a leitura, através do uso estético da língua. Ajudará ver como se apresenta e como muitas vezes se multiplica o ponto de vista de quem fala no texto, os seus recursos de expressão e de recriação da realidade, a observação de analogias, comparações, metáforas, com identificação de recursos estilísticos e poéticos.

Se a língua é fascista, se a gramática é ditadora, se a linguagem deve conformar-se a regras e parâmetros para que se possa esta¬belecer a comunicação, a função da literatura será rebelar-se e usar criativamente a linguagem - com humor – proporcionando prazer e sentimento de liberdade. Com o humor podemos rir,
não do real, e sim do que dele se diz: risível não será o sentido, mas a interpretação diferente, criativa - ou a falta de sentido. E ninguém melhor que a criança para compreender e exercitar essa liberdade, lidar com a falta e a frustração, para assim contornar as pedras do caminho, construindo com elas a poesia de cada dia.

Nessa perspectiva, a literatura infantil parece deixar de ter um lugar especial, ou melhor, parece ampliar-se para designar toda literatura que liberta pela criatividade; melhor será portanto falar de literatura em geral. No caso de Guimarães Rosa, com sua Brejeirinha, percebemos, por exemplo, que a meninazinha poderia ser vista como representação de seu autor, que diria, como ela: "Antes falar bobagens que calar besteiras...", também ele preocupado com os temas do amor e da morte, também ele arteiro e inventivo, doidinho e artista, capaz de brincar com a linguagem, talvez porque também cheio de medos. Como a sua Brejeirinha, Rosa é sensível para falar da beleza e de seus perigos, do tênue limite que separa a estiagem e a chuva, a organização e o caos, ou do desentendimento que sempre perturba a integração amorosa. Por isso, com um trabalho minucioso, artístico e brincalhão de elaboração textual, ele faz um exercício de libertação próprio daquele que é doidinho e artista e com esse fingimento pode enfrentar e vencer, por um instante e com humor, o medo e a própria morte.

Se a origem da literatura é uma dúvida radical, se a ficção é reapresentação da realidade, como diz Gustavo Bernardo, a incompletude e a multiplicidade de disfarces serão suas características marcantes, especialmente dessa arte literária que se destina a jovens e que fornece, através das personagens, o modelo imaginário de que carecemos para manutenção de uma identidade que é sempre instável e precária.

Penso que também a literatura de Bartolomeu Campos de Queirós seria um bom exemplo dessa perspectiva sobre a arte literária: o autor diz explicitamente não ter lições a dar, não escrever "para crianças, mas para saber o que o leitor tem a dizer". Sua obra fala de solidão, de desequilíbrio, de busca de novos prumos, sem "botar pano quente em inquietações mornas". Expressa sempre a dúvida, que diz ter aprendido com o avô, personagem tão presente em suas histórias, com seu olho de vidro e sua preocupação em conservar a memória, escrevendo-a nas paredes da casa. Com o avô aprendeu também, talvez, a falar de uma memória em que as lembranças se misturam dubitativamente com a imaginação, apresentando estranhamentos provocadores da reação do leitor. Prazerosamente desassossegado, esse leitor lê então o silêncio que o escritor deixa entre as palavras e exercita também a sua liberdade, participando do ato criativo, ao costurar a realidade da leitura com as suas lembranças e a sua própria fantasia.

Para Bartolomeu, a função da arte é levar a dor para o campo da beleza, da poesia. Se nada que o real nos oferece nos pode satisfazer, podemos triunfar, com uma linguagem inovadora, desse inevitável fracasso, elaborando-o artisticamente e dando voz à fantasia: de forma direta, construindo um texto que rompe com a linguagem cristalizada do senso comum, ou de forma indireta, degustando a literatura e observando as estratégias e artimanhas com que ela testemunha a tragédia da existência e supera esse luto, transformando em positividade o medo e o sofrimento - a negatividade.

Parece ser por isso que Bartolomeu elabora histórias incompletas e constrói personagens cuja ansiedade se acalma com pequenas ternuras - veja-se, por exemplo, o meninozinho de Até passarinho passa. Ou então será esse o motivo pelo qual esse escritor maior para gente pequena de todas as idades brinca poeticamente com a linguagem, num jogo delicioso que toma, por exemplo, Mário e brinca: a palavra tem o sal - a lágrima - e o doce - a sede; é mar, rio, nome aguado e fala de nascer em aquário; ou mostra que em janela está Jane, anel, nela, anela, ela.


Na obra de Bartolomeu falam crianças de diferentes idades, sempre numa postura que Ana Maria Clark Peres chamaria certamente de "desejante": Um duvida do amor do pai e não sabe o que fazer para agradá-lo; outro observa como a mãe se desdobra para camuflar as faltas e ensinar a brincar com elas; outro mostra como os ciganos são inexplicáveis porque roubam os sonhos, incitando o desejo escondido de ler a linha do horizonte; outros percebem a fragilidade do passarinho, do sonho, do amor, da vida. Tantos falam de medos, de dúvidas, de incompreensões, com frases curtas que estabelecem ligações tênues e mobilizam, no leitor, a sensibilidade e o desejo de expressão. Se o "Menino de Belém" parece completo na sábia alegria com que enfrenta sem medo as águas, os ventos e as tempestades, a sua coragem e o seu destemor provocam na voz narrativa um lamento: "Ah! Menino de Belém, diante de você não sei nada!"

Bartolomeu Campos de Queirós parece assim abrir com a chave da dúvida, da ignorância, da contradição e do estranhamento, do anseio insatisfeito e da criatividade um espaço de libertação e encantamento, onde se valoriza a linguagem e a imaginação e onde o leitor se sente também autorizado a soltar-se e a brincar com a linguagem, para dialogar com um Outro - que é às vezes ele mesmo -, também incompleto e desejante; porque se a percepção do mundo se marca por negatividades, a literatura (especialmente a que se pretende destinar às crianças) pode usar com humor a linguagem, proporcionando prazer e libertação.


In: SUPLEMENTO LITERÁRIO DE MINAS GERAIS; Belo Horizonte, Outubro de 2007. Disponível em http://www.letras.ufmg.br/websuplit/




A ORALIDADE NA SALA DE AULA: PARA NÃO DEIXAR CALAR AS VOZES DO LEITOR

Texto de Lucia Fidalgo*
Dizem que as mulheres sem maridos apareciam na beira do Rio Amazonas para escravizar os homens desejados por elas. Os índios as chamavam de “Icamiabas”.
Eram mulheres lindas, altas, esbeltas, formosas… Seus longos cabelos negros eram trançados em volta da cabeça.
Viviam em grupos formando uma nação independente e dominadora e só formada por mulheres. Mulheres… Belas mulheres que possuíam escravos de várias tribos indígenas.
Em casas feitas de pedra e cercadas de muros altos viviam resistentes e intocáveis.
Mulheres corajosas eram essas, ágeis e terríveis… mulheres guerreiras.
Lutavam com valentia e ferocidade. Manejavam o arco e a flecha com extrema perícia.
Quando lutavam, atacavam tribos vizinhas e escravizavam os homens que eram muito castigados, porém as mulheres da tribo nada sofriam.
Mas como tudo tem seus dias de calmaria, uma vez por ano elas se casavam com “índios guacaris”. Dessa forma evitavam que a tribo desaparecesse. Porém o casamento durava só um dia, para que pudessem engravidar dos seus maridos.
Quando nasciam meninas, todas eram criadas como rainhas, para que pudessem manter as tradições das “Icamiabas”. Porém, quando por azar do destino eram meninos que nasciam, estes eram cruelmente sacrificados, ou entregues aos seus pais quando por lá apareciam.
Mas era quando Jaci, a lua, aparecia junto à cabeceira do rio, que as mulheres sem maridos dançavam, cantavam e faziam oferendas coroando-se com flores em uma bela dança selvagem. A festa acontecia sempre antes do casamento e antes que a lua atingisse o alto do céu, as “Icamiabas” iam até o lago com potes de perfumes que derrubavam na água para purificá-la. E à meia-noite mergulhavam no fundo do lago e de lá traziam uma terra verde, com a qual modelavam rãs, peixes e tartarugas. Esses bichos viravam amuletos da sorte, chamados “Muiraquitã”.
Os Muiraquitãs depois de secos e endurecidos eram oferecidos aos “índios guacaris”que os penduravam em seus pescoços para terem muita sorte.
Assim os homens com seus amuletos no pescoço fugiam para bem longe dessas mulheres… belas… cheias de coragem… e sonhavam com o dia em que novamente poderiam encontrá-las para serem amados por durante uma longa noite de amor na beira do rio Jamundá, o grande espelho da lua…


Essa é uma lenda de origem amazônica, recontada com minhas palavras e com algumas reticências. Inicio esse texto com uma história, para trazer a questão da oralidade na sala de aula. A importância do trabalho com a oralidade fica clara para quem compreende que ela pode contribuir também para a formação do leitor. Não digo que ela seja a única e mágica forma de se fazer isso, mas é um caminho para uma aproximação entre leitor e livro, ou outro objeto de leitura que próximo dele esteja. Aprender a atuar com várias linguagens e com a oralidade é dar voz ao silêncio calado que impera muitas vezes nas escolas. Quando falo em oralidade, não falo apenas de traços presentes nas histórias escritas em papel ou das histórias contadas de boca em boca, mas falo também das histórias anônimas de alunos feitas com palavras que querem, muitas vezes, gritar por socorro. Há histórias dentro deles que a escola não conhece, às vezes não aproveita e não faz delas exercícios de escuta do que o outro tem a dizer, mas sim do que o aluno aprendeu – ou não - a escrever, privilegiando a escrita sobre a oralidade. Privilegiar a escrita pode significar manter postura repressiva sobre as falas,ou mesmo não entender que falar e escrever são práticas que se completam e andam juntas na formação e no entendimento do aluno leitor –esse aluno que ao entrar na escola traz um acervo constituído ou em processo, mas que não pode ser menosprezado na sua formação e no seu entendimento do mundo. E Paulo… o Freire, disse tanto sobre a leitura desse mundo. Mas há tantos Paulos que querem dizer e ninguém escuta. Cabe, então, à escola pensar em ações pedagógicas que respeitem a expressão oral trazida pelos alunos, e que se adequem aos conhecimentos necessários para a realização das atividades didáticas propostas por ela. Não quero defender aqui a escolarização da leitura, mas quero sim uma leiturização da escola. Ver nascer uma escola que lê, e que também é lida por seus alunos, professores, serventes, inspetores. Descobrir onde foi que essa escola se calou, onde foi que ela aprisionou os seus desejos… Conceituar os fenômenos da linguagem, pensar sobre isso para entender os silêncios pré-estabelecidos e as línguas que desapareceram, melhorando assim a capacidade de compreensão e expressão do universo escolar. Dizem que quando o livro fez sua primeira aparição, Sócrates rejeitou-o por considerá-lo inferior à conversação. Mesmo assim o livro chegou, não apagou a palavra, não silenciou o discurso, mas sim o ampliou, não houve morte alguma. Outros produtos industriais chegaram e chegam todos os dias. Há uma diversidade de suportes para carregar as palavras; novas tecnologias batem em nossas portas sem que a gente tenha tempo de decifrar cada uma delas. Mesmo assim as conversações continuam, as vozes voam longe, mesmo que algo queira por alguns instantes calá-las. Talvez seja a força das Icamiabas que, com os muiraquitãs, possa espalhar a coragem pelos guerreiros que estão por aí lutando. Chamo aqui de guerreiros os professores, mediadores de leitura, que não podem dar mais do que tem, mas podem se entender também como leitores, entender que os leitores nunca deixam de nos surpreender e podem, em suas leituras, encontrar suas fantasias inventivas, se deixando levar pelas águas dos rios perfumados pelas Icamiabas, embalados pelo desejo de um novo encontro de amor entre o leitor e suas leituras.


*Lúcia Fidalgo,é bibliotecária, escritora, contadora de histórias, mestre em educação e pesquisadora da Catedra de Leitura da UNESCO-PUC-RJ. www.luciafidalgo.com
Escreveu a obra Passo a passo no compasso publicada pela RHJ. Segundo a autora:
No livro Passo a passo no compasso, de Lúcia Fidalgo, o cenário da sala de aula com seus conflitos e diferenças vai sendo contado pelo olhar do aluno criador que
tenta falar sobre talentos diversos na sala de aula e sobre como é importante o professor reconhecer isso e perceber que a sala de aula é um caleidoscópio de idéias pensantes e pulsantes. Comparações entre os diferentes talentos não devem existir, pois viva a diferença!




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Livro de imagem ‘cena de rua’ de angela-lago:
novos olhares para antigas questões


Hanna Talita Gonçalves Pereira de Araújo*
artigo apresentado no III Seminário de Cultura Visual, FAV-UFG

Resumo

Neste trabalho trazemos algumas reflexões acerca do livro de imagem da artista plástica mineira Angela-Lago, denominado Cena de Rua. Em sua narrativa visual, a artista trata poeticamente da questão de crianças em situação de rua. A composição imagética, o domínio técnico, o projeto gráfico e o apurado senso estético da artista foram elementos essenciais na construção de uma das obras de literatura infantil mais premiada no mundo. Pautada na imagem, a artista retoma antigas questões da realidade urbana e nos conduz em sua narrativa visual e faz-nos olhar de outro modo, pelo viés da infância.

Palavras-chave:

Livro-de-imagem;literatura infantil; Angela-Lago; narrativa visual

Abstract

This work brings some thoughts about the image book Cena de Rua produced by Angela-Lago, artist from the State of Minas Gerais in Brazil. She addresses the issue – children living at the streets - through a visual narrative. Careful imagery composition, use of technical skills, efficient graphic design project, and a great aesthetic sense of the artist are all evident in the construction of this piece that is one on the most prized children’s literature in the world. Based on image attributes, the artist brings back old urban issues perceived from the childhood point of view.

Keywords:

Picture book; children’s literature; Angela-Lago; visual narratives

Introdução
A presença de imagens em livros de literatura infanto-juvenil tem papel importante na constituição de significados entre a literatura e o leitor. A imagem convida o leitor a manusear um livro, assim como um título inusitado de um livro também pode fazê-lo. A imagem nos comunica, ainda que não tenhamos a intenção de sabê-lo. Ao contrário de um texto literário, que exige conhecimento prévio de uma língua para sua leitura, a imagem pode ser apreendida apenas com um passar de olhos e mesmo assim fixar-se na mente de quem vê.
Tratamos da imagem presente nas obras de literatura infantil. Nosso escopo consiste na elaboração do chamado Livro de Imagem, gênero no qual sua narrativa se dá, sobretudo, a partir da composição de imagens em sequência narrativa.
Este trabalho representa um recorte da pesquisa desenvolvida no mestrado junto ao Instituto de Artes da Unicamp, na área das artes visuais, fomentada pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Nesta pesquisa buscamos compreender os modos de criação de narrativas visuais, a partir do relato de três artistas plásticos brasileiros que produzem livros de imagem. Para esta apresentação trazemos um dos livros o qual estudamos seu processo de criação: Cena de Rua.
A artista e seu processo de criação
Angela-Lago é, no cenário da literatura infantil, uma das autoras mais respeitadas, tendo como especificidade o fato de ser uma exímia ilustradora. Tendo trinta anos de experiência como autora/ilustradora, Angela-Lago recebeu diversos prêmios na área, tendo seus livros publicados em diversos países.
Por três vezes, foi candidata brasileira ao prêmio Hans Christian Andersen de Ilustração, promovido pelo International Board on Books for Young People (IBBY).
Realizamos entrevista[1] com a artista na qual ela discorreu sobre seus processos de criação e sua concepção de literatura infantil. Todos os demais ilustradores[2] entrevistados se referem à Angela-Lago como alguém com muito conhecimento, tomando-a como referência na luta pela valorização da categoria, seja em questões de qualidade artística e estética, seja pela luta por melhores remunerações dos ilustradores, por questões de qualidade de impressão, tempo de criação, etc.
Sua narrativa sobre seus processos criativos mostraram-nos uma artista inquieta, que busca, através de sua experienciação artística, dialogar com questões concernentes ao universo do ser humano, como sentimento do amor, do envelhecimento, amizade, etc., bem como de reescrever contos tradicionais. Angela explora os temas assim como o faz com as técnicas. Aquarela, acrílica, óleo, photoshop, tablet, fotografia são algumas das estratégias da artista na construção de suas imagens, nas quais fica evidente o domínio da técnica na composição dessa imagem. Conforme o artista percorre sua trajetória artística percebe que a técnica corresponde ao fazer manual, que pode ser aprendido por qualquer pessoa, na cultura em que vive, expressando, assim, certas vivências pessoais que se tornaram possíveis em determinado contexto cultural.
Para Ostrower, a técnica representa um instrumento de trabalho, que o artista precisa conhecer e dominar com plena soberania, mas nas obras de arte, as técnicas acabam se tornando invisíveis sendo absorvidas inteiramente pelas formas expressivas. (1990:18).
Outro ponto relevante no processo de criação da artista é a compreensão do livro enquanto suporte, enquanto substrato da imagem. Angela se apropria do projeto gráfico na construção dos significados de seus livros, ampliando as possibilidades de criação de sentidos com a literatura.
A composição de elementos que desencadeiam uma narrativa exige um conhecimento prévio das estruturas plásticas necessárias, como domínio técnico do fazer artístico, forçosamente. Não obstante, a complexidade da estruturação narrativa, pensando em imagens em sequência narrativa, consiste em um complicado trabalho de artista, detentor de um planejamento espacial, um apurado senso estético, um humor refinado, consciência de seus propósitos educativos, etc.
Cena de Rua: só mais um dia, em uma esquina
O livro brasileiro Cena de Rua é um dos livros de literatura infantil mais premiados no mundo, sendo o único livro brasileiro escolhido na seleção da Abrams Press, de Nova York, dentre os quinze melhores livros de imagens do mundo.
Na composição de imagens narrativas, os artistas inserem elementos que buscam construir significados de leitura, que sustentem a narrativa por imagem. O signo está implícito na composição da imagem e exige um olhar mais atento para que ocorra a significação. Alguns elementos inseridos durante o processo de construção da obra são calcados intencionalmente por eles nas imagens, com a clara distinção que o fazer pode ocasionar/direcionar a leitura da imagem, conduzindo o olhar do leitor. Compreendemos, no entanto, que o artista, quando da produção de suas obras, deixa marcas de diversas naturezas na obra sem que esteja necessariamente consciente destes gestos. As ‘aberturas’ presentes nas imagens convidam os leitores a buscar significados que condizem com sua própria experiência de vida. Os signos têm seus significados firmados no contexto sócio-cultural, mas eles podem ter sentidos diferentes de acordo com sujeito. Vygotsky (2000) distingue dois componentes do significado: um deles é o significado, propriamente dito. O outro aspecto é o sentido. Milhões de pessoas que falam português compartilham o significado de termos da língua portuguesa, a partir da generalização. No entanto, o sentido corresponde ao significado da palavra aliado à experiência vivida em cada subjetividade. Deste modo, o termo rua, por exemplo, tem sentidos diferentes para uma pessoa que a tem apenas como um lugar de passagem: um para quem por ela passa de carro e outro àquele que por ela passa a pé; sentidos diversos de uma pessoa tem a rua como moradia.
O livro Cena de Rua narra, por imagens, o cotidiano de um menino em situação de rua, que vende algo no semáforo. Trazemos neste trabalho cinco imagens desta narrativa visual que é composta por um total de onze imagens.
É noite, cercado por quatro carros verdes com faróis acesos, um menino verde ao centro, com uma caixa com três bolinhas dentro. O menino olha assustado para um motorista vermelho, que revida o olhar de modo agressivo (ilustração 1).
O uso intencional da cor é empregado como recurso narrativo na caracterização dos personagens e na ambientação do espaço da cena, como pode ser observado no início da narrativa. O menino é verde e usa roupas em tons de azul. Tem as pernas tortas e o pescoço inclinado. Não existem delimitações claras entre os elementos da composição, de modo que se mesclam as fronteiras entre o menino e os carros e o escuro da noite. A imagem sem contorno nos remete à falta de visibilidade própria da noite.
Ilustração1 - 1ª página dupla
Nesta primeira imagem, composta por página dupla, pode-se observar que a artista se apropria da dobra do meio da folha utilizando-a como um suporte para a narrativa. Esta dobra representa, normalmente, um empecilho para o ilustrador, já que a imagem será cortada ao meio. Angela estrutura a imagem de modo que a dobra coincida com as articulações do menino, as quais, no movimento de leitura do livro, a imagem plana desloca-se dando vida ao menino e contribui com a sua atuação na história.
Embora ambos os personagens sejam proporcionais o homem, por ser vermelho, é sobressalente e toma o foco da imagem. O olhar entre os dois é ponto alto da imagem, entre a acusação e o medo, o de dentro e o de fora, o motorista e o pedestre, o adulto e a criança.
Assumindo esta dobra da página, a artista a utiliza como recurso de identificação com o leitor, como pode ser observado, também, na imagem abaixo (ilustração 2). No movimento de leitura, as laterais se fecham e encurralam, ainda mais, o menino entre os carros. Do mesmo modo que aproxima os personagens do leitor, levando à ideia de identificação, como se o leitor estivesse ao lado os demais personagens, entre o motorista e seus cães.
Ilustração 2- 2ªpágina dupla
O uso da cor nesta imagem (ilustração 2) nos remete a constituição dos personagens. A motorista tem a mesma cor que os cães, seus dentes são pontiagudos, recursos estes empregados como uma forma de aproximação da condição de animalidade; ela é um animal agressivo, assim como os cães. Os carros nesta imagem se diferem da anterior, sendo amarelos.
No decorrer da narrativa confrontamo-nos com algumas situações as quais o menino vive em seu cotidiano, na situação suscetível a que se encontra. Na sequência da narrativa visual, uma mulher rouba um dos objetos os quais o menino vende na rua. Em nenhuma das imagens a artista colocou a presença de um semáforo para localizar a história. No entanto, no uso das cores, a artista emprega nos objetos que o menino vende as cores referentes à convenção das cores do trânsito.
O emprego da cor nas imagens seguintes representa os sentimentos que permeiam a situação. Se nas imagens anteriores (ilustrações 1 e 2 ) as matizes avermelhadas eram utilizadas nos momentos negativos, nos personagens ‘maus’, vemos na próxima imagem (ilustração 3) que a personagem da vez tem traços dessa matiz, mas também tem variações de cor entre azul e verde - que são as cores do menino. O uso da dobra da página é utilizado nesta página que, no movimento da leitura, estabelece o que é dentro e o que é fora do carro. Vemos uma senhora avermelhada, com roupa azul, com colar de pérolas, anéis, brincos e de posse de uma bolsa a qual segura firme junto ao corpo. Ela olha de lado para o menino, desconfiada . O medo de ser assaltada, o preconceito, a ostentação, a riqueza, estão do lado de dentro, no canto esquerdo, enquanto a curiosidade, o espanto, a pobreza, estão na rua, do lado de fora do carro.
Ilustração 3-3ª página dupla
Passível de especulação, já que a condição de carência financeira é evidente deste o início da narrativa, a carência afetiva é outro ponto levantado nesta narrativa visual. Por que uma criança está na rua a esta hora da noite? Onde está sua mãe? São questões que fazemos quando nos deparamos com situações semelhantes. A próxima imagem (ilustração 4) nos dá indícios de que algo mais ocorre na vida deste menino.
A composição se assemelha à estrutura da ilustração 3, na qual o menino está olhando para dentro de um carro. Talvez seja o mesmo carro no qual duas pessoas estão sentadas no banco de trás, já que os interiores dos veículos se assemelham. Nesta imagem, o menino se defronta com uma situação que lhe causa melancolia: uma mãe carrega um bebê, no qual ambos experienciam um momento de puro afeto, tendo uma atmosfera sublime. O menino tem a face triste, está pasmado com o que observa, podemos imaginar seus pensamentos neste momento de contemplação. Os tons frios nos levam a sentimentos mais amenos, a considerar a mãe e seu filho como pessoas boas, ainda que estejam alheias à condição do menino.

Ilustração 4- 4ª página dupla
No desenvolvimento da narrativa nos encontramos imersos nesta dura realidade a qual nos identificamos e nos projetamos na intenção de supor os sentimentos que perpassam a vida desta criança. Cansado, com fome, o menino pausa seu ‘trabalho’ e se vê forçado a comer aquilo que lhe daria dinheiro (ilustração 6). À esquerda da imagem, podemos visualizar a vitrine de uma confeitaria e o menino comendo uma das frutas que tentava vender. Seu rosto não demonstra alegria em comer, ou não demonstra alegria em comer o que está comendo. Teria ele querido comer um dos bolos? A composição da imagem sugere que sim.
No canto esquerdo da imagem o menino sentado no meio fio, em uma esquina, à frente de uma confeitaria. Na lateral direita, um carro com dois ocupantes observam o ocorrido. Um deles, com a mão na boca, olha pra cima, fugindo o olhar. O outro olha para o cachorro do centro da imagem que atravessa a rua, de encontro ao menino. Toda a atmosfera que os circundam tem tons avermelhados, assim como os carros e seus ocupantes.
O cachorro que se aproxima do menino em nada se assemelha aos demais cachorros da narrativa. O cachorro tem as cores do menino e seus dentes não estão protuberantes. As cores semelhantes buscam comparar menino e cachorro? Estaria o menino na condição de animalidade, de abandono tal qual um cachorro de rua? Suas ações demonstram que seus sentimentos são elevados, já que na continuidade da narrativa ele compartilha com o cão aquilo que é seu (único?) sustento, suas frutas.

Ilustração 5-5ª página dupla
Sintetizando a sequência desta narrativa visual, o menino rouba um embrulho de um carro. Suas condições de vida o levam a roubar? Talvez lhe pareça o único modo de sobreviver na rua em uma grande cidade. Os passageiros do veículo, apavorados diante da ameaça que representa o menino, sentem-se acuados, embora tenham muitos pacotes os quais o menino rouba um para si: um presente embrulhado; seria de aniversário? Saberia o menino o que é ganhar um presente de aniversário? Num beco escuro e escondido, no vão de qualquer prédio, de qualquer cidade, o menino abre "seu presente" e o mesmo cotidiano lhe é presenteado novamente, uma caixa semelhante à que ele tinha em mãos no inícioda narrativa.
Finalizando a sequência narrativa, a artista nos brinda com a mesma imagem que esta história iniciou. O ciclo se encerra, mas ele nos diz que tudo será iniciado novamente. O cotidiano do menino não será alterado substancialmente. Amanhã estará ele suscetível às mesmas situações as quais ele se defronta em sua rotina na rua.
O fazer artístico, Angela-Lago e sua ‘Cena de Rua’
A sensibilidade da artista em relação às crianças que vivem em situação de rua nos conduz através de suas impressões calcadas na composição das imagens de sua narrativa visual. A narrativa mobiliza sentimentos, fazendo com que nos identifiquemos com as personagens, nos sensibilizemos com a situação na qual o menino se encontra, nos revoltemos com as atitudes que os personagens que se relacionam com o garoto têm, nos envergonhemos aos nos identificarmos com estes mesmos personagens, tendo os mesmos sentimentos.
Angela-Lago teve intencionalidade ao construir esta densa narrativa visual. Ela vive em uma grande cidade e se depara com situações semelhantes cotidianamente, assim como muitos de nós. O modo que confrontamos com esta situação se altera com a constância dos fatos: todos os dias vemos a pobreza, vemos pessoas vivendo de modo inapropriado, passando fome, usando drogas, etc. No entanto, esta repetição, aliada à sensação de impotência, tem efeito banalizador. Ainda que não concordemos com esta situação, a vida moderna nos conduz para este efeito anestesiante.
A narrativa visual Cena de Rua nos retira do estado de apatia que nos encontramos em nosso cotidiano e denuncia; abre nossos olhos para uma realidade que está presente há muitos e muitos anos.
A arte possibilitou essa denúncia de forma poética, através da sensibilidade de uma artista experiente que se comoveu e quis comover. O estopim de criação desta narrativa, de acordo com Angela-Lago, foi "O sentimento de orfandade, então eu tive o sentimento de simpatia aguçado pelo menino de rua. Eu vi o menino abandonado com muito mais simpatia. Eu perdi meu pai muito mais madura, envelhecendo, com mais de 50 anos, mas, na hora que você fica órfã, você é órfã com 50, com 70".
Acerca da ausência de texto em sua narrativa Angela diz: "Imagine escrever esse livro com texto? Seria intolerável a possibilidade de texto porque ficaria um texto tão demagógico. O que eu posso até falar com palavra, isso é até prudente com imagem que eu posso falar da desigualdade, posso me pôr de um lado tranquilamente e dividir um lado é bom e um lado é péssimo, porque um lado que é visto como o lado mau não é tão mau assim, que o lado bom é péssimo, horroroso, eu posso fazer isso com imagem. Com palavra eu não daria conta, eu acho que eu seria demagógica. O texto não cabia, e ia ficar ridículo, sem força, sem eloquência, sem dramaticidade, ou com uma dramaticidade piegas, ou com uma dramaticidade demagógica."
Angela domina o uso da técnica e sabe empregá-la de modo que mergulhamos em sua narrativa e divagamos pelo terreno artístico, embalados pelo sentimento de fruição estética. Ao contrário do que subentende-se por obra artística e da necessidade do fazer artístico, como uma necessidade de expressão e comunicação a outrem, Angela diz que precisou fazer o ‘Cena de Rua”, talvez ele tenha sido necessário pra mim, engraçado que eu acho que os livros são necessários pro autor. Que não é pros leitores, é pro autor mesmo.
A partir do sentimento de orfandade, ela se colocou a necessidade de fazer esta história, de narrar esta situação, e assim o fez e a compartilhou, quando da publicação desta obra. Se esta obra se fez necessária para Angela-Lago em determinada situação de sua vida, esta obra se coloca como necessária para nós, leitores, enquanto leitura, enquanto exercício de cidadania.
A imagem exige de seu leitor que ele recorra ao seu repertório de vida para que a leitura ocorra. O leitor se coloca ao ler uma imagem. A leitura da imagem está estritamente vinculada à subjetividade e às impressões e concepções de cada um. A artista, consciente do poder de comunicação das imagens, a partir de sua poética nos reapresenta um antigo problema das grandes cidades: a desigualdade social. Ela denuncia, reorganiza, revaloriza, desmoraliza e resignifica a questão da marginalidade, do bom e do mau, a partir de sua narrativa visual. Finalizo este artigo com os dizeres de Angela-Lago sobre a ausência de palavras nesta narrativa:
Eu não tinha outra chance de fazer esse livro com palavras, eu tenho que fazer uma reportagem, mas uma reportagem visual, porque as pessoas não vão acreditar se eu falar. (Angela-Lago)


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Bibliografia

VYGOTSKY, Lev. A Formação Social da Mente. São Paulo: Martins Fontes,
2000.
OSTROWER, F. Acasos e Criação Artística. Rio de Janeiro:Campus, 1990.
__________. Criatividade e Processos de Criação. Petropólis-RJ: Vozes, 1997.
LAGO, Angela. Entrevista concedida a Hanna Araújo. Belo Horizonte,
12/12/2008.
__________. Cena de Rua. Belo Horizonte: RHJ, 1994.
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* Hanna Araújo- Formada em Pedagogia pela Faculdade de Educação da Unicamp em 2007. Atualmente está vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, onde desenvolve pesquisa de mestrado, estudando o processo de criação dos artistas autores de livros de imagem, junto ao Instituto de Artes da Unicamp, sob orientação da Profa. Dra. Lucia Reily. É bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

[1] Entrevista realizada em Belo Horizonte em 05/12/2008, coletada por áudio e vídeo.
[2] Os demais artistas os quais seus processos de criação são nosso objeto de estudo são Graça Lima e André Neves.

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Correspondência,

no traço de Angela-Lago
Érika de Pina Lopes*
Para se fazer uma análise da ilustração de Angela-Lago para o livro Correspondência, de Bartolomeu Campos de Queirós, editado pela RHJ, devem ser levados em consideração muitos detalhes que fazem com que texto e ilustração se complementem, conforme veremos a seguir.
O texto, feito à época do movimento “Diretas Já” e da instalação da Assembléia Nacional Constituinte, é altamente sugestivo e nos leva a muitas reflexões, intensificadas e ampliadas pela ilustração e pelo projeto gráfico, desde a capa. A capa do livro representa uma carta, em seu envelope de borda verde e amarela, já selada e carimbada, embora sem destinatário ou endereço. Esse detalhe nos remete à hipótese de que ela se destina ao mesmo tempo a todos e a ninguém em particular, isto é, ela foi enviada e, para quem se interessar, é um convite à leitura.
Junto ao início do texto, a ilustração nos mostra a imagem de uma pessoa derramando um pote de tinta que vai se espalhando até o final da página, dando-nos a impressão de continuidade. Propositadamente, ao que parece, essa tinta derramada é verde e amarela, e a impressão de continuidade é mantida até o final do texto, com a última ilustração.
Virando-se a primeira página do texto, temos a figura de uma alegre vilazinha bastante patriota, já que ostenta a bandeira nacional no alto de uma de suas casas. O texto e a ilustração nos informam que desta vilazinha parte uma carta por mar, o que vai caracterizar esse lugarejo como uma possível aldeia de pescadores, pequena, pobre e sem recursos de comunicação e transporte: a carta é levada em uma canoa a remo.
Essa mesma canoa retorna na seguinte ilustração, ancorada à outra margem, num ambiente rural, cujos moradores despacham sua correspondência por trem. Nessa prancha começa a haver uma maior interação entre imagem e texto, com a fumaça do trem grifando a palavra destacada, “nossa”. Recurso semelhante irá repetir-se nas ilustrações posteriores.
Na página seguinte, vemos a estação ferroviária deixada para trás e uma carta sendo levada por ciclistas até uma fábrica, mostrada a seguir. A fumaça que sai de suas chaminés polui a palavra “violência”, posta em destaque no texto. Os desenhos de Angela-Lago são tão detalhados e minuciosos que surpreendem o leitor. Por exemplo, se dobrarmos essa folha para trás, ela continuará tendo sentido, estabelecendo uma continuidade com o desenho anterior. A sequência das ilustrações, portanto, constitui ela mesma uma linha narrativa.
Prosseguindo, vemos, através das nuvens de fumaça, a fábrica que ficou para trás. A bicicleta, encostada, já cumpriu sua missão de transportar a carta. Agora, no céu que cobre uma cidadezinha do interior, vemos uma nuvem que sopra palavras, e novamente outra carta inicia sua viagem, desta vez a cavalo, em direção a uma fazenda. De lá, a correspondência prossegue sua jornada de ônibus.
Em seguida, é de um arraial que sai, puxada por uma carreta, a carta que agora está bem grande. Observa-se que, à medida que a narrativa flui, ajuntam-se novas informações, a correspondência vai aumentando de tamanho (e de força), até que no final do texto é mostrada uma enorme carta que simboliza a soma de todas as outras e que, mesmo contendo diferentes inquietações de um povo, constitui um todo, um só ideal a alcançar.
Do arraial, a carta vai por via aérea a uma capital (talvez o Rio de Janeiro), caracterizada por altos prédios e uma presumível superpopulação. Neste ponto, o texto nos propõe uma palavra para reflexão: “igualdade”, ricamente explorada pela ilustração que demonstra o contraste entre prédios e favelas.
Pelo rio chega-se aos mangues e ao índio e depois, por mar, a uma espécie de “fim de linha” aonde inúmeras pessoas, vindas de diferentes lugares e usando diversos meios de transporte, trazem cartas e mais cartas. Embora o traço miniatural de Angela- Lago não nos permita distinguir muito bem os rostos dessa multidão, ali parecem estar presentes negros, índios, orientais, homens, mulheres, crianças, ricos, pobres, operários, ou seja, a ilustração continua refletindo sobre a palavra “igualdade”.
A última cena nos mostra uma urna onde são depositadas todas as cartas sob a forma de votos, deixando no texto o destaque para as palavras “justos, próximos, verdadeiros”. Ao ser aberta, finalmente, a carta revela seu conteúdo: é a bandeira nacional, que simboliza todas as palavras que foram acordadas nas sucessivas cartas que formam o texto escrito. São as palavras que se identificam aos anseios, às lutas, aos desejos, transformados no desejo de uma única conquista. A figura de uma borboleta amarela no alto da página representa a fragilidade, a beleza e a liberdade de nossos sonhos, ao mesmo tempo em que nos alerta para o fato de como é fácil perdê-los.
O contínuo fio condutor da ilustração, que se iniciara ao se derramar a tinta na folha de rosto, arremata-se agora na figura de uma delicada pena que, não estando vinculada necessariamente ao texto ou ao contexto do restante das ilustrações, adquire um teor metalinguístico. Mostra-nos o outro lado que possibilitou a realização desse trabalho, isto é, de um lado a tinta, do outro, a pena – imagens e palavras.
Texto e ilustração mostram-nos o Brasil como ele é, uma fusão de vários grupos étnicos que, além das diferenças pessoais, possuem recursos, meios de sobrevivência, habitação e transporte diferentes, mas possuem também coisas em comum, como os sonhos, as esperanças, a fé, o verde e amarelo de sua bandeira.
Ao analisarmos Correspondência, não podemos deixar de nos referir a duas particularidades do texto e da ilustração. A primeira é a presença insistente do número três no texto escrito; a segunda é a circularidade da ilustração. Ao falar sempre em três palavras, o autor possivelmente nos remete à ideia das três partes que, segundo Freud, constituem a nossa personalidade, o id, o ego e o superego. Dizemos isto, pois o texto nos fala de palavras que são reveladas em sonho (desejo), são cobradas na realidade (consciência) e disciplinadas em leis (a constituição), isto é, se estabelecem em equilíbrio, como ocorre em nossa mente. Não é, certamente, a única leitura que esse número comporta. O três é muito presente no simbolismo religioso também, é a imagem da Trindade, perspectiva que se harmoniza com destinatários e missivistas das cartas que compõem o texto escrito, cujos nomes foram buscados na Bíblia: Ana, Maria, Marta e Sara; Lucas, Marcos, Mateus e João. Ainda, no simbolismo numerológico, a soma do quatro (quatro correspondentes homens e quatro mulheres) e do três resulta no número sete, número mágico que indica a plenitude e a perfeição. Como se vê, a ideia de totalidade de esforços e de desejos fica reforçada neste livro de várias maneiras.
O texto é estruturado de forma circular, isto é, a carta passa de mão em mão e no final volta para Ana, a que plantou a ideia. O texto de estrutura circular nos dá a esperança de que há sempre um recomeço, sempre se pode voltar ao princípio. Diferentemente do texto linear, que apresenta um início e um fim, no texto circular o fim funde-se ao início, num movimento continuado. O mesmo ocorre com a ilustração de Angela-Lago, em perfeita sintonia com o texto de Bartolomeu Campos de Queirós. Contínua e progressiva, a ilustração se estende em movimento. Se não precisássemos fragmentar a sequência das imagens pela virada de página, provavelmente elas se aproximariam bastante de um filmezinho, não só permitido como recomendado para todas as idades.
* Este texto foi produzido por Érika de Pina Lopes em disciplina ministrada por Vera Maria Tieztmann Silva (Leitura Literária e outras leituras: impasses e alternativas no trabalho do professor. Ed. RHJ) na graduação em Letras da Faculdade Federal de Goiás.