segunda-feira, 28 de junho de 2010

Livros da RHJ em Kits literários

Os livros Marionete - Mario Vale e Ar - Ingrid B. Bellinghausen foram selecionados para compor o Kit Literário da Prefeitura de Belo Horizonte. Marionete, ao lado de Bráulio, o livro em branco - Celso Vieira - também foi selecionado para compor o Kit literário de Contagem! Parabéns aos autores!

Entrevista com o autor Sebastião Nuvens

Desta vez é o poeta Sebastião Nuvens, Tião Nunes ou Sebastião Nunes que nos fala um pouco sobre literatura e sobre sua obra infantil O Peru que nasceu 30 dias antes do Natal. Confira um pouco sobre a obra e a vida do autor.

RHJ: Sebastião Nunes contar um pouco da sua trajetória profissional como escritor, editor e artista gráfico? 

Sebastião Nunes: Desde os 9 anos gosto de escrever e desenhar. Pintei quadros, fiz charges, escrevi peças e contos. Mas nada deu certo. Até que optei por escrever poesia, que me ocupou durante uns 20 anos. Depois passei a publicar prosa satírica e, há uns 15 anos, "achei" a literatura infanto-juvenil. Afinal, tenho cinco filhos e com eles aprendi o lúdico da narrativa infantil. 

Desde essa época, publico livros para adultos e também para crianças. Como não gosto muito de pedir favor, fundei primeiro a Dubolso (1980), editora de literatura adulta, principalmente poesia. Em 2000, com um punhado de autores e ilustradores, fundei a Dubolsinho, que é hoje minha principal atividade. 

Mas os primeiros livros fora publicados pela Editora RHJ (três livros ao todo), aprovados por Angela-Lago e pelo Rafael Andrade. Angela já era minha amiga de muitos anos, e Rafael se tornou amigo a partir daí. Aliás, ele me ajudou muito com dicas e ideias quando do lançamento da Dubolsinho.

RHJ: “Uma história infantil com desenvolvimento juvenil e moral senil, destinada a mal-educar pessoas de todas as idades”. Esta apresentação, presente na capa de O peru que nasceu 30 dias antes do natal parece um bom exemplo de oposição a certo modo de pensar a literatura infantil segundo o qual os livros têm sempre funções específicas como “educar”. Você poderia nos falar um pouco sobre sua posição em relação à literatura infantil? 

SN: Acho que existe muita coisa ruim, ao lado de muita coisa boa, tanto na literatura pra crianças e jovens como para adultos. E não gosto de fazer da literatura uma "arma" de ensinar coisas. A função da literatura – talvez única - é ajudar no desenvolvimento da criatividade, na ampliação do conhecimento do mundo de forma original, de modo que seu principal objetivo é tornar mais clara a inteligência e mais aguçados os meios de compreensão da realidade e do mundo mágico da fantasia, da criatividade linguística e da poesia. Educar nesse caso, seria ajudar a aprimorar os dons intelectuais das crianças, torná-las mais criativas e mentalmente mais saudáveis, mais alegres e criativas.

RHJ: Em O peru que nasceu 30 dias antes do Natal há um narrador que nos deixa a par do que se passa com o personagem, um belo e jovem peru, tanto em relação a suas ações quanto a suas sensações e sentimentos. No final desta história irônica, lemos: “agradecimentos especiais aos alegres coadjuvantes desta alegre história (é claro que pelos padrões humanos)”. A voz do narrador e a constatação dos “padrões humanos” na história de um peru nos permite perguntar: você acha que a literatura é capaz de ir além do humano?

SN: A literatura é capaz de tudo, porque a criatividade não tem limite. Podemos ir - e muitos autores vão - bem fundo na "alma" dos bichos e das coisas, até das pedras. A fantasia permite tudo, como, no caso de minha história, pensar com a cabeça do jovem peru e imaginar o que ele sentiria se pudesse pensar como nós. E nem se trata de discutir crueldade com os animais, pois acho que temos tanta coisa pra discutir (principalmente a violência entre os humanos, limites da educação, formas novas de conhecimento) que não me envolveria em polêmicas desse tipo. Foi apenas uma forma engraçada que achei de mostrar a infelicidade dos perus, pobres coadjuvantes em nossas pouco cristãs festas natalinas.

Livro de imagem Cena de Rua de Angela-Lago: novos olhares para antigas questões

Hanna Talita Gonçalves Pereira de Araújo*
artigo apresentado no III Seminário de Cultura Visual, FAV-UFG

Resumo

Neste trabalho trazemos algumas reflexões acerca do livro de imagem da artista plástica mineira Angela-Lago, denominado Cena de Rua. Em sua narrativa visual, a artista trata poeticamente da questão de crianças em situação de rua. A composição imagética, o domínio técnico, o projeto gráfico e o apurado senso estético da artista foram elementos essenciais na construção de uma das obras de literatura infantil mais premiada no mundo. Pautada na imagem, a artista retoma antigas questões da realidade urbana e nos conduz em sua narrativa visual e faz-nos olhar de outro modo, pelo viés da infância.

Palavras-chave:

Livro-de-imagem;literatura infantil; Angela-Lago; narrativa visual

Introdução

A presença de imagens em livros de literatura infanto-juvenil tem papel importante na constituição de significados entre a literatura e o leitor. A imagem convida o leitor a manusear um livro, assim como um título inusitado de um livro também pode fazê-lo. A imagem nos comunica, ainda que não tenhamos a intenção de sabê-lo. Ao contrário de um texto literário, que exige conhecimento prévio de uma língua para sua leitura, a imagem pode ser apreendida apenas com um passar de olhos e mesmo assim fixar-se na mente de quem vê.
Tratamos da imagem presente nas obras de literatura infantil. Nosso escopo consiste na elaboração do chamado Livro de Imagem, gênero no qual sua narrativa se dá, sobretudo, a partir da composição de imagens em sequência narrativa.

Este trabalho representa um recorte da pesquisa desenvolvida no mestrado junto ao Instituto de Artes da Unicamp, na área das artes visuais, fomentada pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Nesta pesquisa buscamos compreender os modos de criação de narrativas visuais, a partir do relato de três artistas plásticos brasileiros que produzem livros de imagem. Para esta apresentação trazemos um dos livros o qual estudamos seu processo de criação: Cena de Rua.

A artista e seu processo de criação

Angela-Lago é, no cenário da literatura infantil, uma das autoras mais respeitadas, tendo como especificidade o fato de ser uma exímia ilustradora. Tendo trinta anos de experiência como autora/ilustradora, Angela-Lago recebeu diversos prêmios na área, tendo seus livros publicados em diversos países.

Por três vezes, foi candidata brasileira ao prêmio Hans Christian Andersen de Ilustração, promovido pelo International Board on Books for Young People (IBBY).

Realizamos entrevista[1] com a artista na qual ela discorreu sobre seus processos de criação e sua concepção de literatura infantil. Todos os demais ilustradores[2] entrevistados se referem à Angela-Lago como alguém com muito conhecimento, tomando-a como referência na luta pela valorização da categoria, seja em questões de qualidade artística e estética, seja pela luta por melhores remunerações dos ilustradores, por questões de qualidade de impressão, tempo de criação, etc.

Sua narrativa sobre seus processos criativos mostraram-nos uma artista inquieta, que busca, através de sua experienciação artística, dialogar com questões concernentes ao universo do ser humano, como sentimento do amor, do envelhecimento, amizade, etc., bem como de reescrever contos tradicionais. Angela explora os temas assim como o faz com as técnicas. Aquarela, acrílica, óleo, photoshop, tablet, fotografia são algumas das estratégias da artista na construção de suas imagens, nas quais fica evidente o domínio da técnica na composição dessa imagem. Conforme o artista percorre sua trajetória artística percebe que a técnica corresponde ao fazer manual, que pode ser aprendido por qualquer pessoa, na cultura em que vive, expressando, assim, certas vivências pessoais que se tornaram possíveis em determinado contexto cultural.
Para Ostrower, a técnica representa um instrumento de trabalho, que o artista precisa conhecer e dominar com plena soberania, mas nas obras de arte, as técnicas acabam se tornando invisíveis sendo absorvidas inteiramente pelas formas expressivas. (1990:18).

Outro ponto relevante no processo de criação da artista é a compreensão do livro enquanto suporte, enquanto substrato da imagem. Angela se apropria do projeto gráfico na construção dos significados de seus livros, ampliando as possibilidades de criação de sentidos com a literatura.

A composição de elementos que desencadeiam uma narrativa exige um conhecimento prévio das estruturas plásticas necessárias, como domínio técnico do fazer artístico, forçosamente. Não obstante, a complexidade da estruturação narrativa, pensando em imagens em sequência narrativa, consiste em um complicado trabalho de artista, detentor de um planejamento espacial, um apurado senso estético, um humor refinado, consciência de seus propósitos educativos, etc.

Cena de Rua: só mais um dia, em uma esquina

O livro brasileiro Cena de Rua é um dos livros de literatura infantil mais premiados no mundo, sendo o único livro brasileiro escolhido na seleção da Abrams Press, de Nova York, dentre os quinze melhores livros de imagens do mundo.

Na composição de imagens narrativas, os artistas inserem elementos que buscam construir significados de leitura, que sustentem a narrativa por imagem. O signo está implícito na composição da imagem e exige um olhar mais atento para que ocorra a significação. Alguns elementos inseridos durante o processo de construção da obra são calcados intencionalmente por eles nas imagens, com a clara distinção que o fazer pode ocasionar/direcionar a leitura da imagem, conduzindo o olhar do leitor. Compreendemos, no entanto, que o artista, quando da produção de suas obras, deixa marcas de diversas naturezas na obra sem que esteja necessariamente consciente destes gestos. As ‘aberturas’ presentes nas imagens convidam os leitores a buscar significados que condizem com sua própria experiência de vida. Os signos têm seus significados firmados no contexto sócio-cultural, mas eles podem ter sentidos diferentes de acordo com sujeito. Vygotsky (2000) distingue dois componentes do significado: um deles é o significado, propriamente dito. O outro aspecto é o sentido. Milhões de pessoas que falam português compartilham o significado de termos da língua portuguesa, a partir da generalização. No entanto, o sentido corresponde ao significado da palavra aliado à experiência vivida em cada subjetividade. Deste modo, o termo rua, por exemplo, tem sentidos diferentes para uma pessoa que a tem apenas como um lugar de passagem: um para quem por ela passa de carro e outro àquele que por ela passa a pé; sentidos diversos de uma pessoa tem a rua como moradia.
O livro Cena de Rua narra, por imagens, o cotidiano de um menino em situação de rua, que vende algo no semáforo. Trazemos neste trabalho cinco imagens desta narrativa visual que é composta por um total de onze imagens.

É noite, cercado por quatro carros verdes com faróis acesos, um menino verde ao centro, com uma caixa com três bolinhas dentro. O menino olha assustado para um motorista vermelho, que revida o olhar de modo agressivo (ilustração 1).

O uso intencional da cor é empregado como recurso narrativo na caracterização dos personagens e na ambientação do espaço da cena, como pode ser observado no início da narrativa. O menino é verde e usa roupas em tons de azul. Tem as pernas tortas e o pescoço inclinado. Não existem delimitações claras entre os elementos da composição, de modo que se mesclam as fronteiras entre o menino e os carros e o escuro da noite. A imagem sem contorno nos remete à falta de visibilidade própria da noite.

























Ilustração1 - 1ª página dupla

Nesta primeira imagem, composta por página dupla, pode-se observar que a artista se apropria da dobra do meio da folha utilizando-a como um suporte para a narrativa. Esta dobra representa, normalmente, um empecilho para o ilustrador, já que a imagem será cortada ao meio. Angela estrutura a imagem de modo que a dobra coincida com as articulações do menino, as quais, no movimento de leitura do livro, a imagem plana desloca-se dando vida ao menino e contribui com a sua atuação na história.

Embora ambos os personagens sejam proporcionais o homem, por ser vermelho, é sobressalente e toma o foco da imagem. O olhar entre os dois é ponto alto da imagem, entre a acusação e o medo, o de dentro e o de fora, o motorista e o pedestre, o adulto e a criança.

Assumindo esta dobra da página, a artista a utiliza como recurso de identificação com o leitor, como pode ser observado, também, na imagem abaixo (ilustração 2). No movimento de leitura, as laterais se fecham e encurralam, ainda mais, o menino entre os carros. Do mesmo modo que aproxima os personagens do leitor, levando à ideia de identificação, como se o leitor estivesse ao lado os demais personagens, entre o motorista e seus cães.
























Ilustração - 2ª página dupla

O uso da cor nesta imagem (ilustração 2) nos remete a constituição dos personagens. A motorista tem a mesma cor que os cães, seus dentes são pontiagudos, recursos estes empregados como uma forma de aproximação da condição de animalidade; ela é um animal agressivo, assim como os cães. Os carros nesta imagem se diferem da anterior, sendo amarelos.

No decorrer da narrativa confrontamo-nos com algumas situações as quais o menino vive em seu cotidiano, na situação suscetível a que se encontra. Na sequência da narrativa visual, uma mulher rouba um dos objetos os quais o menino vende na rua. Em nenhuma das imagens a artista colocou a presença de um semáforo para localizar a história. No entanto, no uso das cores, a artista emprega nos objetos que o menino vende as cores referentes à convenção das cores do trânsito.

O emprego da cor nas imagens seguintes representa os sentimentos que permeiam a situação. Se nas imagens anteriores (ilustrações 1 e 2 ) as matizes avermelhadas eram utilizadas nos momentos negativos, nos personagens ‘maus’, vemos na próxima imagem (ilustração 3) que a personagem da vez tem traços dessa matiz, mas também tem variações de cor entre azul e verde - que são as cores do menino. O uso da dobra da página é utilizado nesta página que, no movimento da leitura, estabelece o que é dentro e o que é fora do carro. Vemos uma senhora avermelhada, com roupa azul, com colar de pérolas, anéis, brincos e de posse de uma bolsa a qual segura firme junto ao corpo. Ela olha de lado para o menino, desconfiada . O medo de ser assaltada, o preconceito, a ostentação, a riqueza, estão do lado de dentro, no canto esquerdo, enquanto a curiosidade, o espanto, a pobreza, estão na rua, do lado de fora do carro.
























Ilustração 3 - 3ª página dupla

Passível de especulação, já que a condição de carência financeira é evidente deste o início da narrativa, a carência afetiva é outro ponto levantado nesta narrativa visual. Por que uma criança está na rua a esta hora da noite? Onde está sua mãe? São questões que fazemos quando nos deparamos com situações semelhantes. A próxima imagem (ilustração 4) nos dá indícios de que algo mais ocorre na vida deste menino. 
A composição se assemelha à estrutura da ilustração 3, na qual o menino está olhando para dentro de um carro. Talvez seja o mesmo carro no qual duas pessoas estão sentadas no banco de trás, já que os interiores dos veículos se assemelham. Nesta imagem, o menino se defronta com uma situação que lhe causa melancolia: uma mãe carrega um bebê, no qual ambos experienciam um momento de puro afeto, tendo uma atmosfera sublime. O menino tem a face triste, está pasmado com o que observa, podemos imaginar seus pensamentos neste momento de contemplação. Os tons frios nos levam a sentimentos mais amenos, a considerar a mãe e seu filho como pessoas boas, ainda que estejam alheias à condição do menino.























Ilustração 4 - 4ª página dupla

No desenvolvimento da narrativa nos encontramos imersos nesta dura realidade a qual nos identificamos e nos projetamos na intenção de supor os sentimentos que perpassam a vida desta criança. Cansado, com fome, o menino pausa seu ‘trabalho’ e se vê forçado a comer aquilo que lhe daria dinheiro (ilustração 6). À esquerda da imagem, podemos visualizar a vitrine de uma confeitaria e o menino comendo uma das frutas que tentava vender. Seu rosto não demonstra alegria em comer, ou não demonstra alegria em comer o que está comendo. Teria ele querido comer um dos bolos? A composição da imagem sugere que sim.

No canto esquerdo da imagem o menino sentado no meio fio, em uma esquina, à frente de uma confeitaria. Na lateral direita, um carro com dois ocupantes observam o ocorrido. Um deles, com a mão na boca, olha pra cima, fugindo o olhar. O outro olha para o cachorro do centro da imagem que atravessa a rua, de encontro ao menino. Toda a atmosfera que os circundam tem tons avermelhados, assim como os carros e seus ocupantes.

O cachorro que se aproxima do menino em nada se assemelha aos demais cachorros da narrativa. O cachorro tem as cores do menino e seus dentes não estão protuberantes. As cores semelhantes buscam comparar menino e cachorro? Estaria o menino na condição de animalidade, de abandono tal qual um cachorro de rua? Suas ações demonstram que seus sentimentos são elevados, já que na continuidade da narrativa ele compartilha com o cão aquilo que é seu (único?) sustento, suas frutas.
























Ilustração 5 - 5ª página dupla

Sintetizando a sequência desta narrativa visual, o menino rouba um embrulho de um carro. Suas condições de vida o levam a roubar? Talvez lhe pareça o único modo de sobreviver na rua em uma grande cidade. Os passageiros do veículo, apavorados diante da ameaça que representa o menino, sentem-se acuados, embora tenham muitos pacotes os quais o menino rouba um para si: um presente embrulhado; seria de aniversário? Saberia o menino o que é ganhar um presente de aniversário? Num beco escuro e escondido, no vão de qualquer prédio, de qualquer cidade, o menino abre "seu presente" e o mesmo cotidiano lhe é presenteado novamente, uma caixa semelhante à que ele tinha em mãos no inícioda narrativa.

Finalizando a sequência narrativa, a artista nos brinda com a mesma imagem que esta história iniciou. O ciclo se encerra, mas ele nos diz que tudo será iniciado novamente. O cotidiano do menino não será alterado substancialmente. Amanhã estará ele suscetível às mesmas situações as quais ele se defronta em sua rotina na rua.

O fazer artístico, Angela-Lago e sua ‘Cena de Rua’

A sensibilidade da artista em relação às crianças que vivem em situação de rua nos conduz através de suas impressões calcadas na composição das imagens de sua narrativa visual. A narrativa mobiliza sentimentos, fazendo com que nos identifiquemos com as personagens, nos sensibilizemos com a situação na qual o menino se encontra, nos revoltemos com as atitudes que os personagens que se relacionam com o garoto têm, nos envergonhemos aos nos identificarmos com estes mesmos personagens, tendo os mesmos sentimentos.

Angela-Lago teve intencionalidade ao construir esta densa narrativa visual. Ela vive em uma grande cidade e se depara com situações semelhantes cotidianamente, assim como muitos de nós. O modo que confrontamos com esta situação se altera com a constância dos fatos: todos os dias vemos a pobreza, vemos pessoas vivendo de modo inapropriado, passando fome, usando drogas, etc. No entanto, esta repetição, aliada à sensação de impotência, tem efeito banalizador. Ainda que não concordemos com esta situação, a vida moderna nos conduz para este efeito anestesiante.

A narrativa visual Cena de Rua nos retira do estado de apatia que nos encontramos em nosso cotidiano e denuncia; abre nossos olhos para uma realidade que está presente há muitos e muitos anos.

A arte possibilitou essa denúncia de forma poética, através da sensibilidade de uma artista experiente que se comoveu e quis comover. O estopim de criação desta narrativa, de acordo com Angela-Lago, foi "O sentimento de orfandade, então eu tive o sentimento de simpatia aguçado pelo menino de rua. Eu vi o menino abandonado com muito mais simpatia. Eu perdi meu pai muito mais madura, envelhecendo, com mais de 50 anos, mas, na hora que você fica órfã, você é órfã com 50, com 70".

Acerca da ausência de texto em sua narrativa Angela diz: "Imagine escrever esse livro com texto? Seria intolerável a possibilidade de texto porque ficaria um texto tão demagógico. O que eu posso até falar com palavra, isso é até prudente com imagem que eu posso falar da desigualdade, posso me pôr de um lado tranquilamente e dividir um lado é bom e um lado é péssimo, porque um lado que é visto como o lado mau não é tão mau assim, que o lado bom é péssimo, horroroso, eu posso fazer isso com imagem. Com palavra eu não daria conta, eu acho que eu seria demagógica. O texto não cabia, e ia ficar ridículo, sem força, sem eloquência, sem dramaticidade, ou com uma dramaticidade piegas, ou com uma dramaticidade demagógica."

Angela domina o uso da técnica e sabe empregá-la de modo que mergulhamos em sua narrativa e divagamos pelo terreno artístico, embalados pelo sentimento de fruição estética. Ao contrário do que subentende-se por obra artística e da necessidade do fazer artístico, como uma necessidade de expressão e comunicação a outrem, Angela diz que precisou fazer o ‘Cena de Rua”, talvez ele tenha sido necessário pra mim, engraçado que eu acho que os livros são necessários pro autor. Que não é pros leitores, é pro autor mesmo.

A partir do sentimento de orfandade, ela se colocou a necessidade de fazer esta história, de narrar esta situação, e assim o fez e a compartilhou, quando da publicação desta obra. Se esta obra se fez necessária para Angela-Lago em determinada situação de sua vida, esta obra se coloca como necessária para nós, leitores, enquanto leitura, enquanto exercício de cidadania.

A imagem exige de seu leitor que ele recorra ao seu repertório de vida para que a leitura ocorra. O leitor se coloca ao ler uma imagem. A leitura da imagem está estritamente vinculada à subjetividade e às impressões e concepções de cada um. A artista, consciente do poder de comunicação das imagens, a partir de sua poética nos reapresenta um antigo problema das grandes cidades: a desigualdade social. Ela denuncia, reorganiza, revaloriza, desmoraliza e resignifica a questão da marginalidade, do bom e do mau, a partir de sua narrativa visual. Finalizo este artigo com os dizeres de Angela-Lago sobre a ausência de palavras nesta narrativa:

Eu não tinha outra chance de fazer esse livro com palavras, eu tenho que fazer uma reportagem, mas uma reportagem visual, porque as pessoas não vão acreditar se eu falar. (Angela-Lago)

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Bibliografia

VYGOTSKY, Lev. A Formação Social da Mente. São Paulo: Martins Fontes,
2000.
OSTROWER, F. Acasos e Criação Artística. Rio de Janeiro:Campus, 1990.
__________. Criatividade e Processos de Criação. Petropólis-RJ: Vozes, 1997.

LAGO, Angela. Entrevista concedida a Hanna Araújo. Belo Horizonte,
12/12/2008.
__________. Cena de Rua. Belo Horizonte: RHJ, 1994.
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* Hanna Araújo- Formada em Pedagogia pela Faculdade de Educação da Unicamp em 2007. Atualmente está vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, onde desenvolve pesquisa de mestrado, estudando o processo de criação dos artistas autores de livros de imagem, junto ao Instituto de Artes da Unicamp, sob orientação da Profa. Dra. Lucia Reily. É bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).




[1] Entrevista realizada em Belo Horizonte em 05/12/2008, coletada por áudio e vídeo.
[2] Os demais artistas os quais seus processos de criação são nosso objeto de estudo são Graça Lima e André Neves.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Correspondência, escrito por Bartolomeu Campos de Queirós



Correspondência
Autor: Bartolomeu Campos de Queirós
Ilustrador por Angela-Lago

Por Érika de Pina Lopes 

Para se fazer uma análise da ilustração de Angela-Lago para o livro Correspondência, de Bartolomeu Campos de Queirós, editado pela RHJ, devem ser levados em consideração muitos detalhes que fazem com que texto e ilustração se complementem, conforme veremos a seguir.

O texto, feito à época do movimento “Diretas Já” e da instalação da Assembléia Nacional Constituinte, é altamente sugestivo e nos leva a muitas reflexões, intensificadas e ampliadas pela ilustração e pelo projeto gráfico, desde a capa. A capa do livro representa uma carta, em seu envelope de borda verde e amarela, já selada e carimbada, embora sem destinatário ou endereço. Esse detalhe nos remete à hipótese de que ela se destina ao mesmo tempo a todos e a ninguém em particular, isto é, ela foi enviada e, para quem se interessar, é um convite à leitura.

Junto ao início do texto, a ilustração nos mostra a imagem de uma pessoa derramando um pote de tinta que vai se espalhando até o final da página, dando-nos a impressão de continuidade. Propositadamente, ao que parece, essa tinta derramada é verde e amarela, e a impressão de continuidade é mantida até o final do texto, com a última ilustração.

Virando-se a primeira página do texto, temos a figura de uma alegre vilazinha bastante patriota, já que ostenta a bandeira nacional no alto de uma de suas casas. O texto e a ilustração nos informam que desta vilazinha parte uma carta por mar, o que vai caracterizar esse lugarejo como uma possível aldeia de pescadores, pequena, pobre e sem recursos de comunicação e transporte: a carta é levada em uma canoa a remo.

Essa mesma canoa retorna na seguinte ilustração, ancorada à outra margem, num ambiente rural, cujos moradores despacham sua correspondência por trem. Nessa prancha começa a haver uma maior interação entre imagem e texto, com a fumaça do trem grifando a palavra destacada, “nossa”. Recurso semelhante irá repetir-se nas ilustrações posteriores.

Na página seguinte, vemos a estação ferroviária deixada para trás e uma carta sendo levada por ciclistas até uma fábrica, mostrada a seguir. A fumaça que sai de suas chaminés polui a palavra “violência”, posta em destaque no texto. Os desenhos de Angela-Lago são tão detalhados e minuciosos que surpreendem o leitor. Por exemplo, se dobrarmos essa folha para trás, ela continuará tendo sentido, estabelecendo uma continuidade com o desenho anterior. A sequência das ilustrações, portanto, constitui ela mesma uma linha narrativa.

Prosseguindo, vemos, através das nuvens de fumaça, a fábrica que ficou para trás. A bicicleta, encostada, já cumpriu sua missão de transportar a carta. Agora, no céu que cobre uma cidadezinha do interior, vemos uma nuvem que sopra palavras, e novamente outra carta inicia sua viagem, desta vez a cavalo, em direção a uma fazenda. De lá, a correspondência prossegue sua jornada de ônibus.

Em seguida, é de um arraial que sai, puxada por uma carreta, a carta que agora está bem grande. Observa-se que, à medida que a narrativa flui, ajuntam-se novas informações, a correspondência vai aumentando de tamanho (e de força), até que no final do texto é mostrada uma enorme carta que simboliza a soma de todas as outras e que, mesmo contendo diferentes inquietações de um povo, constitui um todo, um só ideal a alcançar.

Do arraial, a carta vai por via aérea a uma capital (talvez o Rio de Janeiro), caracterizada por altos prédios e uma presumível superpopulação. Neste ponto, o texto nos propõe uma palavra para reflexão: “igualdade”, ricamente explorada pela ilustração que demonstra o contraste entre prédios e favelas.

Pelo rio chega-se aos mangues e ao índio e depois, por mar, a uma espécie de “fim de linha” aonde inúmeras pessoas, vindas de diferentes lugares e usando diversos meios de transporte, trazem cartas e mais cartas. Embora o traço miniatural de Angela- Lago não nos permita distinguir muito bem os rostos dessa multidão, ali parecem estar presentes negros, índios, orientais, homens, mulheres, crianças, ricos, pobres, operários, ou seja, a ilustração continua refletindo sobre a palavra “igualdade”.

A última cena nos mostra uma urna onde são depositadas todas as cartas sob a forma de votos, deixando no texto o destaque para as palavras “justos, próximos, verdadeiros”. Ao ser aberta, finalmente, a carta revela seu conteúdo: é a bandeira nacional, que simboliza todas as palavras que foram acordadas nas sucessivas cartas que formam o texto escrito. São as palavras que se identificam aos anseios, às lutas, aos desejos, transformados no desejo de uma única conquista. A figura de uma borboleta amarela no alto da página representa a fragilidade, a beleza e a liberdade de nossos sonhos, ao mesmo tempo em que nos alerta para o fato de como é fácil perdê-los.

O contínuo fio condutor da ilustração, que se iniciara ao se derramar a tinta na folha de rosto, arremata-se agora na figura de uma delicada pena que, não estando vinculada necessariamente ao texto ou ao contexto do restante das ilustrações, adquire um teor metalinguístico. Mostra-nos o outro lado que possibilitou a realização desse trabalho, isto é, de um lado a tinta, do outro, a pena – imagens e palavras.

Texto e ilustração mostram-nos o Brasil como ele é, uma fusão de vários grupos étnicos que, além das diferenças pessoais, possuem recursos, meios de sobrevivência, habitação e transporte diferentes, mas possuem também coisas em comum, como os sonhos, as esperanças, a fé, o verde e amarelo de sua bandeira.

Ao analisarmos Correspondência, não podemos deixar de nos referir a duas particularidades do texto e da ilustração. A primeira é a presença insistente do número três no texto escrito; a segunda é a circularidade da ilustração. Ao falar sempre em três palavras, o autor possivelmente nos remete à ideia das três partes que, segundo Freud, constituem a nossa personalidade, o id, o ego e o superego. Dizemos isto, pois o texto nos fala de palavras que são reveladas em sonho (desejo), são cobradas na realidade (consciência) e disciplinadas em leis (a constituição), isto é, se estabelecem em equilíbrio, como ocorre em nossa mente. Não é, certamente, a única leitura que esse número comporta. O três é muito presente no simbolismo religioso também, é a imagem da Trindade, perspectiva que se harmoniza com destinatários e missivistas das cartas que compõem o texto escrito, cujos nomes foram buscados na Bíblia: Ana, Maria, Marta e Sara; Lucas, Marcos, Mateus e João. Ainda, no simbolismo numerológico, a soma do quatro (quatro correspondentes homens e quatro mulheres) e do três resulta no número sete, número mágico que indica a plenitude e a perfeição. Como se vê, a ideia de totalidade de esforços e de desejos fica reforçada neste livro de várias maneiras.

O texto é estruturado de forma circular, isto é, a carta passa de mão em mão e no final volta para Ana, a que plantou a ideia. O texto de estrutura circular nos dá a esperança de que há sempre um recomeço, sempre se pode voltar ao princípio. Diferentemente do texto linear, que apresenta um início e um fim, no texto circular o fim funde-se ao início, num movimento continuado. O mesmo ocorre com a ilustração de Angela-Lago, em perfeita sintonia com o texto de Bartolomeu Campos de Queirós. Contínua e progressiva, a ilustração se estende em movimento. Se não precisássemos fragmentar a sequência das imagens pela virada de página, provavelmente elas se aproximariam bastante de um filmezinho, não só permitido como recomendado para todas as idades.

* Este texto foi produzido por Érika de Pina Lopes em disciplina ministrada por Vera Maria Tieztmann Silva (Leitura Literária e outras leituras: impasses e alternativas no trabalho do professor. Ed. RHJ) na graduação em Letras da Faculdade Federal de Goiás.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Entrevista com a autora Ninfa Parreiras

Entrevistamos a autora de Com a Maré e o Sonho e Confusão de Línguas na Literatura: o que o adulto escreve a criança lê, Ninfa Parreiras. Saiba um pouco sobre a vida e carreira da autora.


RHJ: Ninfa, conte um pouco da sua trajetória profissional como escritora e psicanalista?

Ninfa Parreiras: Olá pessoal, sou a Ninfa Parreiras, autora de livros para crianças e adolescentes. Também escrevo textos para professores e educadores e gosto de dar aulas e de encontrar com os leitores. Como psicanalista, atendo, no meu consultório, crianças e adultos.

É um momento para exercer a escuta, ouvir as questões que cada um me traz (os medos, as dúvidas, as alegrias). Na minha prática, percebo que as profissões que exerço se encontram na palavra: escrita (literatura) e falada (psicanálise). No fundo, no fundo, sou uma pessoa apaixonada pela palavra, pelos relatos (escritos e falados).

RHJ: A menina de Com a maré e o sonho é cheia de perguntas e procura respostas pela investigação, por exemplo, do coco. Nem sempre, no entanto, ela alcança as respostas. Na vida, crianças, jovens e adultos, sempre lidam com essas situações, apresentada no livro. Como você pensa a importância da literatura neste contexto? 

NP: A literatura traz a possibilidade de abrir as questões para os leitores pensarem. Pela literatura, mergulhamos em mundos diferentes do nosso. Ao lermos histórias de outros povos, experimentamos situações diversas das que vivemos; sentimos outras emoções; criamos outros caminhos; inventamos sonhos. 

O mais legal é que cada leitor tem um entendimento pessoal e próprio do que leu. A literatura abre caminhos de leitura, de interpretação, de associação com a nossa vida. Por isso, podemos dizer que ela é bastante democrática. Cada um cabe de um jeito pessoal dentro de uma história inventada, de um poema. Ou seja, a literatura permite o exercício da singularidade, do ser cidadão.

RHJ: Em seu mestrado você desenvolveu a pesquisa Psicanálise do Brinquedo na Literatura para crianças. Normalmente, quando ouvimos a palavra “brinquedo” associamos a uma série de objetos que tradicionalmente são utilizados pelas crianças em suas brincadeiras, mas se existem objetos fabricados para serem brinquedos, existem também outros que se tornam, quando apropriados pelas crianças. Qual a importância de um brinquedo? Poderíamos considerar o coco em Com a Maré e o Sonho como um brinquedo?

NP: O brinquedo é, por excelência, o objeto primordial da infância. É o instrumento de comunicação, de diálogo da criança consigo própria e com o mundo. Ao brincar, uma criança interage com um mundo imaginário, de coisas inventadas; ela cria situações, transforma o que quiser em uma bola, um carrinho. Já percebeu como, facilmente, uma criança inventa um brinquedo ou uma brincadeira? Ao fazer essas transformações, ela percebe que os sentimentos, as pessoas, as coisas também podem mudar.

O coco pode ser considerado um brinquedo. A personagem o transforma em bola, globo terrestre, móvel. Ao manusear o coco, ela nota as mudanças que acontecem na casca, no ruído de dentro. O coco passa a habitar o seu quarto, a morar nas suas fantasias. E cada leitor vai tomar esse coco como algo particular.

Entrevista com a autora e ilustradora Angela-Lago

A entrevistada da vez é Angela-Lago, autora e ilustradora, que fala um pouco sobre seus livros.  Angela-Lago possui muitas obras publicadas na editora RHJ, dentre eles a coleção Folclore de CasaCasa pequena, Casa Assombrada, Casa de pouca conversa.

    


RHJ: Angela-Lago, conte um pouco da sua trajetória profissional nos serviços sociais e como se tornou escritora e artista plástica?

Angela-Lago: A trajetória foi simples. Era um desejo que começou aos sete anos, ou antes, e que pouco a pouco me guiou em sua direção.

RHJ: Os livros Casa de Pouca Conversa, Casa Pequena e Casa Assombrada, criados em 1993, possuem um formato pouco comum. Uma criança lá em Papagaios disse que são “livros pequenos por fora e grandes por dentro”. Você poderia nos contar como foi criar estes livros e porque eles são “pequenos por fora”? 

AL: Esses três livros foram projetados para caberem dentro de uma caixinha e não, para serem vendidos separadamente. Ganharam prêmios assim. Mas a editora RHJ, apesar dos meus protestos, considerou difícil manter o projeto inicial, cuja produção não era simples, e por isso, hoje vende os livros separadamente. A caixa foi desenhada como uma casa, pois a coleção se chama Folclore de Casa. Ela cabe no bolso da camisa, sobre o coração.


RHJ: Estes três livros, foram os primeiros livros lidos por uma criança que nunca mais parou de ler, de tanto que gostou. Curiosamente, são três livros que partem de histórias orais. Como você pensa este trabalho de reescrita de textos orais, especialmente no aspecto da transformação do suporte dos textos?

AL: Fico muito feliz de saber isso. Tenho o projeto de transformar esses livros em animações interativas para a internet, com esse intuito. Tomara que esses contos ajudem muitas crianças nesse aprendizado e que as levem a querer ler mais e mais. Ah… A rescrita dos contos: eu havia trocado meu computador por um colorido e seguia encantada com as novas possibilidades de diagramação. Por isso as letras fazem trajetos, atravessam os desenhos, conversam com eles. Há alguma coisa de coloquial também no desenho, que funciona, talvez, como os gestos do contador de casos. O texto ondula como a ondulação da voz.

Saiba mais sobre os livros: Casa Assombrada, Casa de Pouca Conversa, Casa Pequena