segunda-feira, 28 de junho de 2010

Entrevista com o autor Sebastião Nuvens

Desta vez é o poeta Sebastião Nuvens, Tião Nunes ou Sebastião Nunes que nos fala um pouco sobre literatura e sobre sua obra infantil O Peru que nasceu 30 dias antes do Natal. Confira um pouco sobre a obra e a vida do autor.

RHJ: Sebastião Nunes contar um pouco da sua trajetória profissional como escritor, editor e artista gráfico? 

Sebastião Nunes: Desde os 9 anos gosto de escrever e desenhar. Pintei quadros, fiz charges, escrevi peças e contos. Mas nada deu certo. Até que optei por escrever poesia, que me ocupou durante uns 20 anos. Depois passei a publicar prosa satírica e, há uns 15 anos, "achei" a literatura infanto-juvenil. Afinal, tenho cinco filhos e com eles aprendi o lúdico da narrativa infantil. 

Desde essa época, publico livros para adultos e também para crianças. Como não gosto muito de pedir favor, fundei primeiro a Dubolso (1980), editora de literatura adulta, principalmente poesia. Em 2000, com um punhado de autores e ilustradores, fundei a Dubolsinho, que é hoje minha principal atividade. 

Mas os primeiros livros fora publicados pela Editora RHJ (três livros ao todo), aprovados por Angela-Lago e pelo Rafael Andrade. Angela já era minha amiga de muitos anos, e Rafael se tornou amigo a partir daí. Aliás, ele me ajudou muito com dicas e ideias quando do lançamento da Dubolsinho.

RHJ: “Uma história infantil com desenvolvimento juvenil e moral senil, destinada a mal-educar pessoas de todas as idades”. Esta apresentação, presente na capa de O peru que nasceu 30 dias antes do natal parece um bom exemplo de oposição a certo modo de pensar a literatura infantil segundo o qual os livros têm sempre funções específicas como “educar”. Você poderia nos falar um pouco sobre sua posição em relação à literatura infantil? 

SN: Acho que existe muita coisa ruim, ao lado de muita coisa boa, tanto na literatura pra crianças e jovens como para adultos. E não gosto de fazer da literatura uma "arma" de ensinar coisas. A função da literatura – talvez única - é ajudar no desenvolvimento da criatividade, na ampliação do conhecimento do mundo de forma original, de modo que seu principal objetivo é tornar mais clara a inteligência e mais aguçados os meios de compreensão da realidade e do mundo mágico da fantasia, da criatividade linguística e da poesia. Educar nesse caso, seria ajudar a aprimorar os dons intelectuais das crianças, torná-las mais criativas e mentalmente mais saudáveis, mais alegres e criativas.

RHJ: Em O peru que nasceu 30 dias antes do Natal há um narrador que nos deixa a par do que se passa com o personagem, um belo e jovem peru, tanto em relação a suas ações quanto a suas sensações e sentimentos. No final desta história irônica, lemos: “agradecimentos especiais aos alegres coadjuvantes desta alegre história (é claro que pelos padrões humanos)”. A voz do narrador e a constatação dos “padrões humanos” na história de um peru nos permite perguntar: você acha que a literatura é capaz de ir além do humano?

SN: A literatura é capaz de tudo, porque a criatividade não tem limite. Podemos ir - e muitos autores vão - bem fundo na "alma" dos bichos e das coisas, até das pedras. A fantasia permite tudo, como, no caso de minha história, pensar com a cabeça do jovem peru e imaginar o que ele sentiria se pudesse pensar como nós. E nem se trata de discutir crueldade com os animais, pois acho que temos tanta coisa pra discutir (principalmente a violência entre os humanos, limites da educação, formas novas de conhecimento) que não me envolveria em polêmicas desse tipo. Foi apenas uma forma engraçada que achei de mostrar a infelicidade dos perus, pobres coadjuvantes em nossas pouco cristãs festas natalinas.

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